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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

Poemas sobre a classe operária: Um Morto no Trabalho Material Produtivo



Um Morto no Trabalho Material Produtivo
Paulo Ayres

A noite é uma criança
A madrugada, um velho cansado
Deixando de lado o mistério
É um caso sério a solidão

Operário no banheiro
É o primeiro cadáver sem cheiro
Trabalho morto de um homem torto
A máquina continua a produção

Ele está preso numa tela
Valor da vela de sétimo dia
Na monotonia da hora extra
Ninguém estende a mão

Tanta vida do outro lado
Risos distantes, gozando
Quando acorda pela tarde
O velho arde em recordação

E o vampiro à luz do dia
Nem se via na cadeira de rodas
Mas a roda viva é um vai-e-vem
Bancário na circulação
= = =

terça-feira, 16 de julho de 2024

Poemas sobre a classe operária: Depósito de Matéria-Prima e Moagem

Depósito de Matéria-prima e Moagem
Paulo Ayres

Na floresta artificial no interior da fábrica
os frutos de plástico são encaixotados
e os galhos são as sobras

É um material excedente do trabalho excedente
na jornada excedente da labuta
há mercadorias excedentes

São galhos empilhados e armazenados lá no fundo
no fundo, quase nada se perde
quase tudo se transforma

Operários moídos geram produtos e fumaça
são mais sacos de partículas
sólidas, líquidas e gasosas
= = =

sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

Poemas sobre a classe operária: Ventilador Quebrado

Ventilador Quebrado
Paulo Ayres

Um calor do cão num lugar fechado
não tem ventilador que dê jeito
o meu respeito por mim mesmo escapa através do suor

De melancólico para desesperado
quando destrói um valor de uso
num abuso de ego ferido idealizando algo melhor

O objeto não gira mais
nem o do meu quarto
nem o da minha máquina
é um complô estendido para a fábrica

Enquanto jogo a torneira quente na água
vem um pouquinho de vento da máquina adiante
numa solidariedade involuntária
= = =

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

Poemas sobre a classe operária: O Trabalho Vivo no Dia de Finados

O trabalho vivo no Dia de Finados
Paulo Ayres

Antes do caminhão de melancia
antes do sorvete com sabor de vela derretida
a atividade fundante é um sopro de vida

Antes de morrer é preciso fazer um túmulo
antes de correr em direção ao esquecimento
é preciso parar um momento

Alguém não para nem no dia dos mortos
algo sempre morre na fábrica
a operária sobrevive
= = =


sábado, 7 de maio de 2022

Poemas sobre a classe operária: Inferno 21-67


 
Inferno 21-67
Paulo Ayres

O movimento que se repete
Vinte e um meia sete
Quatro conexões torcem duas mãos
Pele rebarbada por estranhos estiletes

O pensamento que não reflete
Vinte e um meia sete
Ciclo infernal de peças produzidas
Pernas doloridas sustentam a solidão

Desespero repetitivo e ritmado não se nota
Conexões quentes em água parada
= = =

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Poemas sobre a classe operária: Acordo e Aperto


Acordo e aperto
Paulo Ayres

As mãos que apertam o parafuso
as mãos que contam a fortuna
não são idênticas.

Os dedos que apontam de lá
os pés que sabem onde apertam
juntos e paralelos.

O acordo dos patrões aperta quem não está perto
e já que a corda arrebenta do lado de cá,
os parafusos espanam.
= = =

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Na Índia, operárias rurais têm útero retirado para maior produtividade


 
por Geeta Pandey

'Aldeias das mulheres sem ventre': as milhares de indianas que removem o útero por causa de emprego

Milhares de jovens mulheres em Maharashtra, Estado ocidental da Índia, estão fazendo cirurgias para retirar os úteros. A maioria delas adotou essa solução radical para conseguirem empregos em plantações de cana de açúcar ou porque foram induzidas por médicos inescrupulosos.

Todo ano, dezenas de milhares de famílias carentes migram para uma região conhecida como "cinturão do açúcar" para trabalhar por seis meses na colheita da cana.

Muitas famílias acabam nas mãos de empregadores gananciosos que as exploram.

Eles resistem a contratar mulheres porque o trabalho nas plantações é pesado e, segundo eles, mulheres podem perder um ou dois dias de trabalho por causa da menstruação. Quem falta ao trabalho precisa pagar multa.

As condições de vida no local de trabalho estão longe do ideal e são particularmente complicadas para as mulheres durante a menstruação.

As famílias têm que viver em cabanas ou barracas perto das plantações, onde não há banheiros. Como a colheita às vezes é feita mesmo à noite, não há horas fixas nem para trabalhar nem para dormir.

Por causa das más condições de higiene, muitas mulheres contraem infecções. Segundo ativistas que trabalham na região, médicos inescrupulosos as incentivam a passar por cirurgias desnecessárias, mesmo quando apresentam um pequeno problema ginecológico que poderia ser tratado com remédios.

Aldeias de mulheres sem ventre

Como a maioria das mulheres nessas áreas é casada e jovem, muitas têm de duas a três crianças antes mesmo de completar 30 anos. Como os médicos não falam abertamente sobre problemas e dificuldades da histerectomia, muitas mulheres acreditam não haver problema em se livrar de seus úteros.

Isso transformou várias aldeias da região em "aldeias de mulheres sem ventre", segundo a imprensa indiana.

Depois que o problema foi levantado, no mês passado, pelo deputado estadual indiano Neelam Gorhe, o secretário de saúde de Maharashtra, Eknath Shinde, admitiu que 4.605 histerectomia foram realizadas em apenas um distrito - Beed - nos últimos três anos.

Mas, segundo ele, nem todos os procedimentos foram feitos por mulheres que trabalham na colheita da cana.

Shinde disse que uma comissão foi criada para investigar vários casos.

Prajakta Dhulap, que trabalha em um dos serviços da BBC na Índia, visitou um vilarejo de Beed e diz que de outubro de 2018 a março de 2019, 80% dos moradores do local migraram para trabalhar em plantações de cana. Metade das mulheres da vila fez cirurgia para tirar o útero e a maioria tem menos de 40 anos - algumas ainda estão na casa dos 20 anos.

Muitas das mulheres com quem Dhulap conversou disseram que a saúde deteriorou desde que foram submetidas à operação.

Uma mulher relatou uma "dor persistente nas costas, pescoço e joelhos" e disse acordar com mãos, rosto e pés inchados. Outra reclamou de tontura constante e como ela tinha dificuldades de caminhar até mesmo distâncias curtas.

Ambas disseram que não estão conseguindo trabalhar nas lavouras por causa dos problemas de saúde que apareceram depois da cirurgia.

Remédios ilegais contra menstruação

A imprensa também reportou que a situação no estado Tamil Nadu, no sul do país, é igualmente terrível.

Mulheres que trabalham na bilionária indústria de vestuário alegam ter recebido medicamentos não rotulados no trabalho - em vez de um dia de folga - quando se queixaram de dores e cólicas menstruais.

A fundação Thomson Reuters entrevistou aproximadamente 100 mulheres e revelou que esses medicamentos raramente eram fornecidos por profissionais da área médica e apontou que costureiras, em sua maioria de famílias carentes, diziam que não podiam se dar ao luxo de perder o salário de um dia por causa de dores menstruais.

Todas as entrevistadas disseram que tinham recebido remédios e mais da metade delas afirmou estar, como resultado, enfrentando problemas de saúde.

Muitas delas também disseram que não lhes foi dito o nome do remédio e tampouco foi falado sobre possíveis efeitos colaterais.

Algumas atribuíram aos medicamentos problemas como depressão, ansiedade, infecção urinária, miomas e abortos espontâneos.

Reportagens sobre o que mulheres menstruadas são submetidas nos dois Estados da Índia fez com que autoridades tomassem providências.

A Comissão Nacional para Mulheres descreve a situação das mulheres em Maharashtra como "patética e miserável" e pediu ao governo estadual para prevenir "atrocidades" como essa no futuro.

Em Tamil Nadu, o governo afirmou que iria monitorar a situação das trabalhadoras da indústria têxtil.

Disparidade salarial

As notícias chegam em um momento em que estão sendo feitas tentativas em todo o mundo para aumentar a participação das mulheres no mercado de trabalho e reduzir a diferença salarial, implementando políticas de gênero.

Mas, na Índia, a participação da força de trabalho feminina caiu de 36% em 2005-2006 para 25,8% em 2015-2016 e não é difícil entender por que, se olharmos para as condições em que as mulheres têm que trabalhar.

Na Indonésia, Japão, Coreia do Sul e em alguns outros países, as mulheres podem tirar um dia de folga durante o período menstrual. Muitas empresas também oferecem essa possibilidade.

"Também na Índia, o governo do Estado de Bihar vem permitindo que as funcionárias tirem dois dias extras de folga todos os meses desde 1992 e parece estar funcionando muito bem", diz Urvashi Prasad, especialista em políticas públicas do governo indiano.

E, no ano passado, uma deputada apresentou um projeto de lei no Parlamento a fim de assegurar dois dias de folga por mês a todas as trabalhadoras do país.

Urvashi Prasad diz que são muitos os desafios para implementar qualquer tipo de política pública num país tão grande e diverso como a Índia, especialmente no setor informal que exige uma fiscalização muito maior.

Mas, segundo ela, se as mudanças começarem no setor formal, pode ajudar a mudar o comportamento e remover o estigma em torno da menstruação na Índia.

"Então, o que precisamos é que o poderoso setor privado organizado e o governo se posicionem, precisamos que as pessoas no topo enviem os sinais certos", diz ela. "Nós temos que começar em algum lugar e, eventualmente, podemos esperar ver alguma mudança no setor informal também."
= = =

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Poemas sobre a classe operária: Ofensiva Feroz


Ofensiva feroz
Paulo Ayres

Ofensiva feroz do capital
faço bem, colho mal.

Mal coloco o pé na faixa e o mercado acelera
já era
morro nos desmontes.

Mal lembro quem sou e a fábrica me desmonta
quimera
morro acelerado.

Além de morrer em vida
minha ferida não cicatrizará
não me aposentarei.
= = =