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terça-feira, 25 de novembro de 2025

Poemas sobre a classe operária: Hospício Hospitaleiro


Hospício hospitaleiro
Paulo Ayres

A primeira internação é a dos operários
Tijolos sozinhos não fazem um hospital
Depois da tempestade, a calmaria
E a monotonia infernal

Loucura na rua da Belina verde
Muito tempo antes a lógica obreira
Depois da construção, a agonia
Petrifica o hospital

Rodear o pé de manga
Não faz o tempo passar mais rápido

= = =  

domingo, 28 de setembro de 2025

Ricardo Antunes e a “classe-que-vive-do-trabalho”




por Sergio Lessa

No interior do bloco teórico que defende a centralidade do trabalho contra a vaga neoliberal e o irracionalismo pós-moderno, Ricardo Antunes tem sido importante na divulgação das teses contrárias ao fim do emprego, do trabalho e das classes sociais. Seus textos se destacam pelo bom combate contra muitas das teses conservadoras e contrarrevolucionárias; contudo, uma das suas teses centrais, a de que a classe trabalhadora teria se convertido no que denomina de “classe-que-vive-do-trabalho”, jamais deixou de ser polêmica.

Segundo Antunes, as mutações do “mundo do trabalho” teriam tornado a distinção entre proletários e assalariados de Marx por demais “rígida” para expressar adequadamente o que seria a classe trabalhadora hoje. Explicitamente, “como há uma crescente imbricação[1] entre trabalho produtivo e improdutivo no capitalismo contemporâneo”, para “reconhecer que o mundo do trabalho vem sofrendo mutações importantes” seria imprescindível um conceito como o da classe-que-vive-do-trabalho[2]. Esta “rigidez” de Marx, por sua vez, teria por fundamento o seu próprio conceito de trabalho, o qual, para Antunes, necessitaria de uma “ampliação”[3]:

A principal mutação no interior do processo de produção de capital na fábrica toyotizada e flexível (...) [diz Antunes] se encontra (...) na interação crescente entre trabalho e ciência, trabalho material e imaterial, elementos fundamentais no mundo produtivo (industrial e de serviços) contemporâneo.[4]

Tal “interação crescente entre trabalho e ciência, trabalho material e imaterial” levaria a uma situação na qual, numa posição muito próxima a Lojkine,

pelo desenvolvimento dos softwares, a máquina informacional passa a desempenhar atividades próprias da inteligência humana. Dá-se então um processo de objetivação das atividades cerebrais na maquinaria, de transferência do saber intelectual e cognitivo da classe trabalhadora para a maquinaria informatizada.[5]

Postular que um computador ou máquina computadorizada seja portador, ou capaz de absorver, qualquer “saber intelectual e cognitivo” contém, obviamente, algum exagero.[6] Não menos descabido é postular que “na maquinaria” “informacional” possa ocorrer qualquer “objetivação” — o que implicaria ser a máquina capaz de teleologia. Todavia, é nessas teses que Antunes se apoia para prosseguir argumentando que a tendência à redução dos “níveis de trabalho improdutivo dentro das fábricas” (“A eliminação de várias funções como supervisão, vigilância, inspeção, gerências intermediárias etc.”) significa “transferir e incorporar ao trabalho produtivo atividades que eram anteriormente feitas por trabalhadores improdutivos” .[7]

Antunes, nestas passagens, incorporou muito das teses que, de Mallet a Lojkine, velam ou cancelam as distinções entre o trabalho manual e o intelectual, entre o trabalho produtivo e o improdutivo. Que o capitalista procura colocar nos ombros do proletariado, além das tarefas da produção, também as tarefas de “supervisão, vigilância, inspeção, gerências intermediárias etc.” — e que o faz para cortar custos e ampliar a extração de mais-valia, é um fato indiscutível. Isto, todavia, não significa que haja “incorporação” — ou “imbricação” — do trabalho improdutivo ao produtivo. O fato de um operário ser obrigado a cumprir tarefas produtivas e improdutivas não as faz idênticas, nem muito menos significa que uma incorpore a outra. Significa apenas que o trabalhador está sendo mais intensamente explorado.

O que distingue o trabalho produtivo do trabalho improdutivo é a função social de produzir (ou não) mais-valia, e não o indivíduo que os executa. No início do capitalismo e, hoje, nas pequenas empresas ou negócios nascentes, era e é comum o próprio burguês executar funções de vigilância, superintendência, supervisão, inspeção etc. que, com o crescimento do capital (em se tratando dos pequenos ou nascentes “empreendimentos”) ou com o desenvolvimento do modo de produção capitalista, são transferidas aos trabalhadores improdutivos. Esse fato não torna o burguês, naquelas circunstâncias iniciais dos empreendimentos ou do capitalismo, um trabalhador produtivo, mas apenas um burguês cujo desenvolvimento ainda não foi capaz de libertá-lo destas funções. Igualmente, quando o burguês pode obrigar o proletariado a vigiar a si próprio, não significa que a vigilância esteja se identificando à produção e se tornando atividade produtiva, significa apenas que o burguês, nas novas condições, pode conseguir o mesmo resultado pagando um salário, em vez de dois.

É esta desconsideração das funções sociais que distinguem os trabalhos produtivo e improdutivo que possibilita a Antunes postular que hoje não haveria mais uma distinção “tão rígida” quanto em Marx entre os trabalhadores produtivos e improdutivos e, por extensão, entre o proletariado e os demais assalariados. E é esta mesma desconsideração para com a função social distinta do trabalho produtivo e do trabalho improdutivo, independentemente de quem os execute, que leva o autor a manifestar alguma proximidade com Negri, Hardt e Lazzarato e a adotar o conceito de trabalho imaterial como elemento importante na sua proposta de uma “noção ampliada de trabalho”[8]. Postula que “no universo das empresas produtivas e de serviços” ocorreria “um alargamento e ampliação das atividades denominadas imateriais” e cita Lazzarato para afirmar a centralidade do trabalho imaterial na “organização” da “relação produção-consumo” e, ainda, para produzir “antes de tudo a própria relação do capital”[9]. Se o “trabalho imaterial” produz a “própria relação do capital”, não há porque se duvidar de que, para Antunes, o trabalho imaterial seria uma característica decisiva, nada marginal, da sociabilidade contemporânea.

Antunes alega ter reelaborado o conceito de trabalho imaterial.[10] Isso deve ser correto. Em nenhum dos seus textos encontramos a adesão a algumas das teses fundamentais de Negri, Hardt e Lazzarato. Contudo, o autor não se detém a explicitar em que teria consistido esta reelaboração e fica-se com a forte impressão de que o trabalho imaterial a que Antunes se refere não vai além do trabalho intelectual, como nesta passagem:

(...) frequentemente o trabalhador [é forçado] a “tomar decisões”, “analisar as situações”, oferecer alternativas frente as ocorrências inesperadas. O operário deve converter-se num elemento de “integração cada vez mais envolvido na relação equipe/sistema”, expressando uma “capacidade de ativar e gerar a cooperação produtiva”. O trabalhador deve converter-se em “sujeito ativo" da coordenação de diferentes funções da produção, em vez de ser simplesmente comandado. O aprendizado coletivo se converte no principal aspecto da produtividade.[11]

Que o “aprendizado coletivo” se converta “no principal aspecto da produtividade”, é, provavelmente, uma imprecisão equivalente a da tese da absorção pela máquina “do saber intelectual e cognitivo”, ou da “incorporação” do trabalho improdutivo pelo produtivo. Que, no aumento de produtividade, o “aprendizado coletivo” seja mais importante que o aporte de capital, por exemplo, é algo a ser demonstrado. Todavia, todas as novas atividades que, segundo Antunes, caberiam ao operário nas novas condições da reestruturação produtiva estariam englobadas no que Marx denominou, em O capital, de trabalho intelectual, como veremos na Parte II. Não fica claro por que Antunes optou por trabalho imaterial quando o conceito de trabalho intelectual possivelmente lhe servisse melhor. Talvez a razão esteja em que a expressão trabalho imaterial abre espaço semântico para que o seu “conceito ampliado de trabalho” incorpore a fusão entre a máquina e o saber, entre o “trabalho imaterial” e o “trabalho material”, entre o trabalho improdutivo e o produtivo.

Na interpretação que aqui estou oferecendo, as novas dimensões e formas de trabalho vêm trazendo um alargamento, uma ampliação e uma complexificação da atividade laborativa, de que a expansão do trabalho imaterial é exemplo.[12]

Em que sentido a “atividade laborativa” estaria se “alargando”, se “ampliando” e se “complexificando”? Já que o trabalho imaterial “produz a relação do capital”, continua Antunes,

(...) talvez se possa dizer que o dispêndio de energia física da força de trabalho está se convertendo, ao menos nos setores tecnologicamente mais avançados do processo produtivo, em dispêndio de capacidades intelectuais.[13]

Há uma passagem de O capital na qual Marx faz referência ao “trabalho” como “dispêndio de força de trabalho do homem no sentido fisiológico”[14], referindo-se aqui ao trabalho manual, intercâmbio orgânico com a natureza, produtor de valores de uso. O trabalho, nesta acepção de categoria fundante, que produz “o conteúdo material da riqueza, qualquer que seja a forma social desta”[15] é, sempre e necessariamente, um trabalho manual, pois “(...) como o homem precisa de um pulmão para respirar, ele precisa de uma 'criação da mão humana' para consumir produtivamente forças da natureza”. [16] Para Antunes, todavia, a “ampliação” do trabalho estaria acontecendo na medida em que o trabalho manual (“dispêndio de energia física”) estaria se convertendo em trabalho intelectual (“dispêndio de capacidades intelectuais”). Ou, em outras palavras, que o trabalho intelectual estaria tendencialmente ocupando a função social do trabalho manual.

Diferente do passado, no trabalho dos nossos dias, “talvez”, “ao menos nos setores tecnologicamente mais avançados do processo produtivo", o “dispêndio de energia física da força de trabalho está se convertendo (...) em dispêndio de capacidades intelectuais”. O emprego da partícula “talvez” permite ao texto sugerir uma hipótese mais que afirmar uma tese; “ao menos”, na passagem ao menos nos setores tecnologicamente mais avançados do processo produtivo”, torna ambígua a amplitude da sua validade. E a expressão “dispêndio de energia física da força de trabalho” pode tanto significar o trabalho manual que realiza o intercâmbio orgânico com a natureza, no sentido marxiano, como também o trabalho manual do setor de serviços. Fica-se em dúvida do significado preciso das teses de Antunes. Em meio a tal imprecisão, talvez, seja razoável compreendê-las, no contexto da “ampliação” da categoria trabalho proposta pelo autor, como a postulação de uma hipótese: a atividade intelectual estaria se convertendo em trabalho, e este, por sua vez, estaria incorporando, para além do intercâmbio homem/natureza, também as atividades intelectuais. Ou, então, que o trabalho manual estaria se convertendo em trabalho intelectual, incorporando atividades de concepção e controle. Ou, ainda, que o trabalho intelectual estaria substituindo o trabalho manual. Como, de fato, poder-se-ia compreender de outra forma a tese de que “o dispêndio de energia física da força de trabalho está se convertendo (...) em dispêndio de capacidades intelectuais”?

Seja qual for a interpretação dessa passagem, com a ampliação do conceito de trabalho necessariamente ampliar-se-ia também o conceito de trabalhador pela adoção do novo critério, uma “nova chave analítica”, para a determinação das classes sociais:

a chave analítica para a definição de classe trabalhadora é dada pelo assalariamento e pela venda da sua própria força de trabalho. Por isso a denominamos classe-que-vive-do-trabalho, uma expressão que procura captar e englobar a totalidade dos assalariados que vivem da venda de sua força trabalho.[17]

Antunes não está sozinho na postulação desta tese. Ainda que suas posições não possam ser simplesmente identificadas com as teses de Aglietta, de Belleville, de Braverman e até mesmo de um Castel, também é inegável uma convergência entre eles ao considerarem que o nódulo da organização da sociedade passa a ser o assalariamento. Para todos estes autores é a distinção entre assalariados e não assalariados o decisivo na diferenciação entre os, digamos, agentes sociais.

Como já comentamos ao examinarmos Braverman, Antunes também não tem como escapar das inúmeras dificuldades deste critério. Já que o assalariamento contém em seu interior classes sociais distintas e atividades que correspondem a funções sociais muito diferenciadas; como até mesmo gestores do capital são, em larga medida, assalariados - e não necessariamente recebendo elevados salários — a nova “chave analítica” proposta por Antunes é fonte de inúmeras dificuldades.

A primeira delas é a carência de fundamento para a sua afirmação de que o “proletariado industrial” seria o “núcleo principal” da “classe-que-vive-do-trabalho”.[18] O que concederia essa posição privilegiada ao “proletariado industrial” em relação aos outros assalariados? Segundo Antunes, seria o fato de produzir “diretamente mais-valia e participa[r] diretamente do processo de valorização do capital”[19]. Esta, todavia, é uma característica que o proletariado industrial compartilha com todo e qualquer trabalhador produtivo, seja ele um proletário, um trabalhador intelectual ou empregado nos serviços, como veremos no próximo capítulo. Por isso, a tese de que o “proletariado industrial” seria o “núcleo central” da “classe-que-vive-do-trabalho” não pode ser justificada pelo fato de ser produtor de mais-valia e a afirmação termina sendo apenas uma manifestação da convicção pessoal do autor.

É possível que esta carência de um fundamento ontológico ao papel de “núcleo principal” do “proletariado industrial” no interior da “classe-que-vive-do-trabalho” se relacione à sua concepção segundo a qual o decisivo no mundo em que vivemos não mais seria a antinomia proletariado/burguesia, mas, sim, a “confrontação” entre os assalariados e os capitalistas, entre o “trabalho social total e o capital social total”[20]. Nessa concepção, importância menor, se é que há alguma, teria a distinção entre o proletariado e os outros assalariados.

A segunda inconsistência no interior do próprio conceito de “classe-que-vive-do-trabalho” é sua afirmação da existência de um “proletariado de serviços”.

Tem sido um tendência frequente — diz Antunes — a redução do proletariado industrial, fabril, tradicional, manual, estável e especializado, herdeira da era da indústria verticalizada. Esse proletariado se desenvolveu intensamente na vigência do binômio taylorismo/fordismo e vem diminuindo com a reestruturação produtiva do capital, o desenvolvimento da lean production, a expansão ocidental do toyotismo e das formas de horizontalização do capital produtivo, a flexibilização e desconcentração (e muitas vezes desterritorialização[21]) do espaço físico produtivo. (...) Há, por outro lado, um enorme incremento do novo proletariado fabril e de serviços, que se traduz pelo impressionante crescimento, em escala mundial, do que a vertente crítica tem denominado trabalhado precarizado. São os “terceirizados”, subcontratados, part-time, entre tantas outras formas assemelhadas, que proliferam em inúmeras parte do mundo.[22]

Poucas páginas antes, Antunes, como vimos, definira o proletariado como “núcleo principal” dos trabalhadores produtivos e, na mesma página, define serviços como “trabalho improdutivo”[23]. Como seria concebível definir o proletariado como “núcleo central” dos trabalhadores produtivos e, concomitantemente, afirmar-se a existência de um “proletariado de serviços”, sendo os serviços definidos como trabalho improdutivo? Se o proletariado realiza, por definição, o trabalho produtivo, e os serviços, o trabalho improdutivo, na definição de Antunes não há espaço para um “proletariado de serviços”. Nos termos propostos pelo autor, um proletariado de serviços é uma contradição.

Há, ainda, uma terceira dificuldade. Em um anexo a Os sentidos do trabalho, Antunes pondera que os gestores do capital, ainda que recebam “salários altíssimos”, “evidentemente”, “não são assalariados” e “por isso estão excluídos da classe trabalhadora”. Tem ele toda razão se quer dizer, com isso, que a função social de tais gestores é ontologicamente distinta da dos proletários. Mas não tem razão ao dizer que eles não seriam “evidentemente” assalariados[24]. Assalariados são aqueles que, nas palavras de Antunes, “vendem a sua própria força de trabalho” em troca de um salário: um gestor assalariado é tão assalariado quanto um proletário.

Se dermos razão a Antunes e aceitarmos que os gestores do capital que recebem “salários altíssimos” não seriam assalariados, teríamos então um novo e insolúvel problema nas mãos. O de determinar qual seria o salário que tornaria um indivíduo assalariado e qual outro salário que faria quem o recebe “evidentemente” um não assalariado. Como os salários apenas podem se diferenciar quantitativamente, teríamos que estabelecer qual o limite que, uma vez alcançado, faria com que um centavo a mais fizesse de quem o recebe um não assalariado. Tarefa evidentemente impossível, pois há recebedores de elevados salários que são gestores, mas temos também outros que recebem salários bem menores e que não deixam por isso de ser personificações do capital. A hierarquia das fábricas, da construção civil ou dos agrobusiness, para ficarmos apenas com os exemplos mais evidentes, está repleta de tais casos.

Salientemos que estas últimas dificuldades do critério de assalariamento como decisivo para a delimitação das classes sociais são muito semelhantes às já enfrentadas por Braverman, como vimos acima. Para ele, os salários, a partir de um dado patamar, seriam “participação no excedente produzido” e não a venda da força de trabalho. O que, tal como em Antunes, coloca a questão de como delimitar o patamar a partir do qual salário seria “participação no excedente produzido” e não na venda da força de trabalho.

A centralidade do proletariado, o reconhecimento dos serviços como sendo também em parte composto por trabalho produtivo e a distinção entre assalariados proletários e assalariados não proletário, questões decisivas para as teorizações de Antunes, apenas podem ser solidamente fundamentadas pelo critério ontológico que distingue classes sociais, não pelo salário, mas pela função social que exercem: com isto, contudo, estaria imediatamente revogada a nova “chave analítica” proposta por Antunes e nem faria mais sentido a categoria “classe-que-vive-do-trabalho”.

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Notas:
[1] “Imbricação” é o equivalente, em Antunes, a “transferir e incorporar”, como na frase "transferir e incorporar ao trabalho produtivo atividades que eram anteriormente feitas por trabalhadores improdutivos". Ricardo Antunes, Os sentidos do trabalho, São Paulo, Boitempo, 1999, p. 125.
[2] Ibidem, p. 102-3. Nas citações desta obra, os numerosos itálicos são sempre de Antunes.
[3] Ibidem, p. 125, tb. p. 198.
[4] Ibidem, p. 124.
[5] Idem.
[6] Em outros momentos do texto Antunes adota um tom distinto, como nesta passagem: “Como a máquina não pode suprimir o trabalho humano, ela necessita de uma maior interação entre a subjetividade que trabalho e o novo maquinário inteligente. E, nesse processo, o envolvimento interativo aumenta ainda mais o estranhamento do trabalho, amplia as formas modernas da reificação, distanciando ainda mais a subjetividade do exercício de uma cotidianidade autêntica e autodeterminada. Com a aparência de um despotismo mais brando, a sociedade produtora de mercadorias torna, desde o seu nível microcósmico, dado, pela fábrica moderna, ainda mais profunda e interiorizada a condição do estranhamento presente na subjetividade operária”. (Ibidem, p. 130)
[7] Ibidem, p. 125.
[8] Ibidem, p. 125, tb. 198.
[9] Ibidem, p. 127.
[10] Ibidem, p. 129.
[11] Ibidem, p. 127-8.
[12] Idem.
[13] Ibidem, p. 129. Temos aqui a retomada de uma das teses de Mallet, ao menos em seus traços fundamentais. Em 1963, Mallet já havia postulado que “a força manual de trabalho cede lugar ao exercício das faculdades psicofisiológicas, a fadiga nervosa substitui a fadiga física”. (S. Mallet, La nouvelle classe ouvrière, Paris: Éditions du Seuil, 1963, p. 12-3). Este mesmo tema comparecerá, alguns anos depois, no interior do PC francês no contexto de uma disputa acerca dos limites da classe trabalhadora: “Se é verdade que o trabalho dos engenheiros de produção combina, no estado atual do modo de produção capitalista, trabalho produtivo e improdutivo, o fato de apenas se considerar as relações de produção terá como consequência fazer ver, como principal, o aspecto improdutivo da sua atividade, ligado às funções de comando para a valorização do capital. Ora as formas novas que a relação do homem com a natureza material tomaram em ligação com o desenvolvimento das ciências e do seu papel na produção tendem a fazer do engenheiro mais um produtor que um dirigente”. (Launay, J., “Reflexions sur le concept de production”, em Economie et Politique, Paris, n. 170, p. 186, set. 1968, apud J. Nagel, Trabalho colectivo e trabalho improdutivo na evolução do pensamento marxista, Lisboa: Ed. Prelo, 1979, p. 139-40.
[14]  A passagem completa: “Todo trabalho é , por um lado, dispêndio de força de trabalho do homem no sentido fisiológico, e nessa qualidade de trabalho humano igual ou trabalho humano abstrato gera o valor da mercadoria. Todo trabalho é, por outro lado, dispêndio de força de trabalho sob a forma especificamente adequada a um fim, e nessa qualidade de trabalho concreto útil produz valores de uso”. (K. Marx, O capital, v. I, São Paulo: Abril Cultural, 1983, t. I, p. 53)
[15] Ibidem, p. 46.
[16] Marx, O capital, v. I, São Paulo: Abril Cultural, 1985, t. II, p. 17.
[17] Antunes, op. cit., p. 103.
[18] Ibidem, p. 102. Não fica claro por que Antunes daqui exclui o proletariado rural.
[19] Idem.
[20] Ibidem, p. 116.
[21] “Desterritorizalação” é um termo empregado tipicamente por Negri, Lazzarato e Hardt em suas elucubrações acerca do trabalho imaterial. Significa, resumidamente, que graças à transição ao comunismo que estaria já ocorrendo em nossa vida  cotidiana, a fábrica estaria deixando de ser o locus da produção a qual, por sua vez, estaria se esparramando por todo corpo social, de tal modo que o proletário e o consumidor, nesta nova fase histórica, seriam igualmente “produtores”. A “desterritorização” significaria o fim da separação entre a fábrica (locus da produção) e o shopping center (locus do consumo), já que todas as relações sociais seriam igualmente produtivas; implicaria, por extensão, o fim das classes sociais e da antinomia capital/trabalho. Como esta tese seria compatível com a centralidade do “proletariado industrial”, assim como com a centralidade ontológica do trabalho de Marx e Lukács, é o que Antunes não explica em seu texto.
[22] Ibidem, p. 104.
[23] A passagem é esta: “Mas a classe-que-vive-do-trabalho engloba também os trabalhadores improdutivos, aqueles cujas formas de trabalho são utilizadas como serviço, seja para uso público ou para o capitalista, e que não se constituem como elemento diretamente produtivo (...) O trabalho improdutivo abrange um amplo leque de assalariados, desde aqueles inseridos no setor de serviços, bancos, comércio, turismo, serviços públicos etc., até aqueles que realizam atividades nas fábricas mas não criam diretamente valor”. (Ibidem, p. 102)
[24] Ibidem, p. 201.
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LESSA, S. Trabalho e proletariado no capitalismo contemporâneo. 2ª ed. São Paulo: Cortez, 2011, p. 80-89.
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quinta-feira, 8 de maio de 2025

Poemas sobre a classe operária: Anticapitalismo Romântico na Calçada das Americanas

Anticapitalismo romântico na calçada das Americanas
Paulo Ayres

Um colar com pedra mística que vibra com ascendência em Urano
Fulano me mostrou uma pulseira

Lá dentro, servidores com nota fiscal
Aqui fora, artesãos que a maioria não nota

Quem fez os produtos lá de dentro?
Quem fez as roupas, os talheres e o radinho tocando reggae aqui fora?
Será?
Será que foi a operária apressada?

Mercadorias que a deusa Mãe Galática não sabe fazer
Namastê, amiga anarquista

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[0] Primeiro tratamento: 09/05/2018.
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terça-feira, 6 de maio de 2025

Poemas sobre a classe operária: Trabalho Simples


Trabalho Simples
Paulo Ayres

Lá se vai o cara no carro de som
É somente um garoto de recados
Um galão de água pesa pra caramba
Menos que o corpo desidratado

Nos confins da cidade
A complexidade é muito simples

Lá se vai um ilustre desconhecido
É somente o futuro ex-porta
Uma pizza se fatia em mil pedaços
Depende de quem é que corta

Na fábrica da sociedade
A complexidade é muito simples
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terça-feira, 8 de abril de 2025

Poemas sobre a classe operária: Zero à Esquerda

 
 
Zero à esquerda 
Paulo Ayres

Imagine alguém gostar de um completo inútil
É algo tão fútil que não consigo imaginar
Está vivo organicamente
Morreu como ser social

Imagine um choque cardíaco com um sermão
É algo em vão, a vida está por um fio
Professor Brio está bem pago, alimentado e estudado
Ele pode brincar de estoicismo

Cada ovo da granja é um valor de uso
Três cartelas de operários rurais
Nove quebrados, zero à esquerda

Na agitação, os ovos estão mexidos
Faça isso pela Palestina e por Cuba!
Ainda que a conta feche a receita
As armas da crítica não podem substituir a Ana de Armas
= = =

terça-feira, 4 de março de 2025

Poemas sobre a classe operária: Operário de Ponta Grossa

Operário de Ponta Grossa
Paulo Ayres

A partida nem começou de fato
No campeonato paranaense
a temporada se alonga

Um time com um nome tão belo
Sem o troféu amarelo de afeto,
um fantasma alvinegro

Entre as bolas, em cada costura
Linha de montagem em cada postura
É um jogo aberto, uma estrutura
Dura até os acréscimos

De Matinhos até Campo Largo
É amargo o veneno de Cascavel
E o céu em Curitiba

Em Palmas o jogo sempre esfria
Tem dia que a obra parece sólida
O impedimento vem da tela
= = =

domingo, 2 de março de 2025

Poemas sobre a classe operária: Blocos Concretos e Festivos


 
Blocos Concretos e Festivos
Paulo Ayres

Por trás de cada fantasia
Preenchendo cada fotografia
Vestuário do trabalho primário

Cada estatueta foi moldada
Adereço festivo não vem do nada
Paisagens da geografia humana

Entre vestidos de gala
E entre salas secretas
Entretenimento feito pela mão,
Entretanto, mãos operárias
Entrelaçadas com a beleza
evitam o entristecimento

Ainda estou aqui
Vendo o palco da Sapucaí
E pinguins em Los Angeles

Ainda espero a subida
E se a arte imita a vida
Nesse calor do cão,
a premiação é uma incógnita

Em cada bloco há beleza
Mas a estrela acesa está no bastidor
Mesmo com o ultraje a rigor,
Pacola escreve história
= = =

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Sobre a classe servidora

 
por Paulo Ayres

De todas as classes sociais, a classe assalariada de serviços é o principal pivô que tem despertado pesquisas propondo revisões com “ampliação” e “imbricação” no conceito de classes sociais. Não é para menos que essa classe chame tanto a atenção de sociólogos e economistas: a tão falada “expansão do setor terciário” é um fato empiricamente constatável como fenômeno intensificado na fase monopolista do capital (especialmente desde a etapa dos “anos dourados” do imperialismo no pós-Guerra).

O olhar superficial se espanta com a quantidade, ou melhor, retira daí imediatamente (no sentido preciso de ausente de mediação) a constatação dialética da transformação da quantidade em qualidade (o salto ontológico), de uma maneira que altera os fundamentos universais das atividades humanas e os fundamentos histórico-econômicos do modo de produção capitalista. As fronteiras ontológicas entre trabalho (work[1]) e reprodução, ou mais especificamente entre a esfera de produção e a esfera de circulação, são borradas para encaixar um modelo sociologicamente maniqueísta à força – por mais que neguem isso, as propostas de “imbricação” dessas categorias científicas guardam, em última instância, um componente emocional de pena (da garota que é caixa de supermercado, por exemplo) ou de soberba (servidores públicos que colocam um sinal de igualdade entre si e operários, por exemplo); uma dissolução político-passional que é mais comum de se encontrar em determinadas correntes anarquistas e certos social-liberais românticos. Como Gustavo Machado (2017) corretamente diz:

[...] de nada adianta criarmos um conceito mais abrangente se este não encontra respaldo na realidade ou, então, se este suprime diferenças e determinações que, independente de nossa vontade, continuam a atuar. Não fosse assim, Marx seria, certamente, adepto de Bakunin. Este último se opunha, até mesmo, a ênfase dada por Marx aos trabalhadores assalariados, expandindo seu conceito para todos indivíduos e povos de algum modo oprimidos, fossem eles assalariados, camponeses, pequeno burgueses, presidiários e assim sucessivamente. Não se trata de excluir ou incluir nenhum setor da classe trabalhadora em um programa de transformação social, mas de compreender o seu papel objetivo no interior da sociedade, para, então, vislumbrarmos com clareza as vias possíveis de sua destruição.

Há ainda outra questão importante observada por Machado que vai de encontro com certo senso comum sobre a teoria marxiana das classes sociais: Marx já assinala, nos Grundrisse e em Teorias da mais valia, a tendência do capital de expandir o número de trabalhadores (labourers) prestadores de serviços fora da esfera de produção, devido primeiramente ao próprio aumento da produtividade do trabalho (work). Por isso, como diz o autor brasileiro, “o aumento do setor de serviços apenas eleva o peso do setor que produz a riqueza por eles consumida” e “longe de negar os prognósticos de Marx, o crescimento do setor de serviços apenas os reforça e confirma”. O aumento do setor de serviços está na razão direta do aumento da produtividade do trabalho (work) e, assim sendo,

outra causa de ser grande o número dos sustentados por renda é a circunstância de ser grande a produtividade dos trabalhadores produtivos, isto é, seu produto excedente que os serviços consomem. Neste caso, em vez de o trabalho dos trabalhadores produtivos não ser produtivo por haver tantos serviçais, há tantos serviçais, por ser ele tão produtivo (MARX apud MACHADO, 2017).

Apesar das considerações distintivas das atividades econômicas feita por Machado estarem corretas, ele usa equivocadamente o termo mercadoria apenas para bens tangíveis. Um serviço vendido, enquanto força de trabalho (labour power), todavia, também é um tipo de mercadoria, embora não desempenhe o mesmo estatuto ontológico e a mesma função da atividade que se cristaliza em um produto (ou seja, o work) e do produto em si, a mercadoria no sentido de coisa (Ding) tangível. Em outro ponto problemático, o autor trotskista diz, sem citar exemplos, que há lukacsianos que tomam o trabalho produtivo (productive labour) como uma categoria apenas referente ao proletariado e, além disso, o texto nega a centralidade fundante do trabalho (work) ao dizer que o fundamento das sociedades são seus “traços específicos”. Ora, desde quando a particularidade (escravidão, servidão e produção assalariada) nega a universalidade da prioridade ontológica da esfera de produção? Mais um caso de binarismo metafísico.

Essa imensa classe, que existe desde a Antiguidade, é o servidorismo ou serviçariado[2] – esse último termo é proposto também pelo marxista heterodoxo Nildo Viana, com base na menção de Marx à classe dos assalariados serviçais feita em O capital. Neste caso em particular, não se trata de um daqueles neologismos da miséria sociológica reconfigurando o sentido marxista de classes sociais ao gosto liberal da quantia de renda, mas apenas um nome para melhor sintetizar o termo “trabalhadores assalariados não operários”:

Entenda-se por serviçariado (ou subalternidade) a classe subalterna, ou seja, aqueles que Marx denominou de “classe dos serviçais”. O termo em Marx é mais restrito, já que ele cita mordomos e outros trabalhadores domésticos. Consideramos que estes são apenas uma fração da classe subalterna e que esta engloba outras frações e incluem funcionários subalternos do aparato estatal e instituições (estatais ou privadas), como trabalhadores de limpeza e todos que exercem os chamados “serviços” (como bancários, comerciários), entre outros. Os subalternos (ou “serviçais”) são aqueles trabalhadores assalariados improdutivos que não exercem controle sobre os demais, mas, ao contrário, são controlados por outros (capitalistas, burocratas, empregadores) (VIANA, 2016, p. 73-74).

A definição de Viana é adequada em linhas gerais, mas imprecisa em certos detalhes, ou exatamente em dois pontos. Primeiramente, o fato de o protomarxista excluir posições assalariadas de alto comando desta classe para, seguindo esse raciocínio, fundamentar uma camada de burocratas como uma classe social à parte, absorvendo um conceito sociológico de “burocracia”[3] e chegando ao cúmulo politicista de enxergar dirigentes políticos como uma classe social própria. Além disso, na passagem dos Grundrisse citada anteriormente, Marx (apud Machado, 2017) indica a unidade dentro da vasta dimensão desta classe de assalariados, ao dizer que estes trabalhadores (labourers), indo “do mais humilde ao mais elevado”, por meio de seus serviços prestados, “conseguem para si uma parte do produto excedente, da renda do capitalista” (MARX, 2011b, p. 385), isto é, em última escala, conseguem uma parte da riqueza produzida pelos produtores (workers).

O segundo ponto problemático da definição de Viana: ele diz que os servidores são trabalhadores improdutivos (unproductive labourers) e, embora grande parte seja mesmo, nem todos são. Esta, aliás, é uma das distinções essenciais dentro dessa classe. Trabalho produtivo (productive labour) e trabalho improdutivo (unproductive labour), como subcategorias do trabalho abstrato (labour), dizem respeito à produção de mais-valia para um determinado negócio, para um capital individual (Einzelkapital). E se a categoria fundante (work) feita pela classe operária é necessariamente um trabalho produtivo (productive labour), as atividades secundárias feitas pela classe servidora só desempenham esta função em determinados casos.

Os servidores improdutivos representam custos necessários para o capital (incluindo o seu comitê de sustentação, o Estado Burguês) manter a sua reprodução. A questão da necessidade é justamente um ponto em que se apoiam os sociólogos e economistas que querem cancelar as distinções marxianas manual-intelectual e/ou produtivo-improdutivo. Fazem tabula rasa com a necessidade, pois enxergam aí a produtividade (no sentido ontológico-social e/ou particular-capitalista). Ora, para haver a produção no mundo burguês, todos (ou quase todos) os trabalhadores (labourers) são, em algum grau, necessários, inclusive (ou até principalmente), a classe não trabalhadora (labourer), a classe burguesa que organiza; porém, uma coisa é ser necessário à existência da produção capitalista, outra diferente é a atividade que produz, o ser que produz. Como Lessa (2011, p. 108) enfatiza, desde Aristóteles está claro que se um ente é necessário a outro ente, logo são entes (categorias, processos, complexos etc.) distintos.

Enfim, o servidorismo improdutivo é uma enorme e diversificada camada (Schicht) que não valoriza os capitais individuais (e muito menos o capital social total), mas que existe por dois motivos básicos: preservar a estrutura de dominação, controle e exploração na sociedade antagônica – cada vez mais complexa sob a forma burguesa – e, contribuir para escoar parte do excedente e gerar empregos em atividades perdulárias. Na junção das duas tendências, encontramos aquela velha trinca de ouros da dominação classista – exército, clero e burocracia – apresentando uma crescente complexidade, oriunda do aprofundamento da manipulação capitalista, em expressões diversificadas, especializadas e localizadas (funcionalismo público, diversas polícias, sistemas religiosos, setor bancário, etc.). Contudo, também encontramos servidores domésticos e comerciários, por exemplo, pois dentro do estrato (Schicht) destes trabalhadores improdutivos (unproductive labourers) também entra aquela distinção entre trabalho (labour) especializado e não especializado. Inclusive nesse sentido, a função dos servidores improdutivos que atuam no planejamento, controle e vigilância dentro da esfera de produção mantém a velha lógica do gerente e do capataz de formações sociais passadas, mas emergindo uma crescente complexidade técnico-industrial em determinadas categorias profissionais, resultando nos licurgos fabris (MARX, 1984, p. 44-45). Deste modo, na divisão manufatureira, intensifica despoticamente dentro da produção aquela divisão característica da sociedade de classes que Marx relata: quando surge a separação entre trabalho manual (manual labour) e trabalho intelectual (intellectual labour) “até se oporem como inimigos” (ibidem, 105) ou, como também é traduzido, “se separam até formar um antagonismo hostil” (zum feindlichen Gegensatz). Ademais, Lessa (2011, p. 148- 149, nota 82) informa que na primeira edição inglesa do Livro I d’O capital, revisada por Engels, temos a expressão deadly foes (inimigos mortais). Sobre os white-collar labourers (“trabalhadores de colarinho branco”, expressão surgida no século XX) que realizam a atividade de controle dentro da produção capitalista comparada a uma hierarquia militar, Marx menciona que a eles são transferidos um conjunto de funções de trabalho intelectual (intellectual labour) que, em certas condições específicas (como um empreendimento nascente, pequeno, por exemplo) é realizado pelo capitalista, porque

ele transfere agora a função de supervisão direta e contínua do trabalhador individual ou de grupos de trabalhadores a uma espécie particular de trabalhadores assalariados (ein besondre Sorte von Lohnarbaitern) (MARX, 1983, p. 264; apud LESSA, 2011, p. 158).

Em seguida, Marx cita algumas funções dos licurgos fabris:

Do mesmo modo que um exército precisa de oficiais superiores militares, uma massa de trabalhadores, que cooperam sob o comando do mesmo capital, necessita de oficiais superiores industriais (dirigentes, managers) e suboficiais (capatazes, foremen, overlookers, contre-maîtres) que durante o processo de trabalho comandam em nome do capital. O trabalho da superintendência se cristaliza em sua função exclusiva (MARX, 1983, p. 264).

Mas há também, na sociedade burguesa, uma fração de servidores produtivos. E Marx (1984, p. 105-106) escolhe o professor de escola privada como “um exemplo fora da produção material” de trabalho produtivo (productive labour). Do ponto de vista do empresário, do capital individual (Einzelkapital), tanto faz se ele se está colhendo o seu lucro de uma fábrica de armas, de uma fábrica de salsichas ou de uma “fábrica de ensinar”. Porém, do ponto de vista da totalidade, da sociedade ou do capital social total (gesellschaftliche Gesamtkapital) é radicalmente diferente o lucro surgido na esfera de produção para o lucro que é extraído na esfera de circulação. Essa mais-valia apropriada pelo dono da escola ao explorar o serviço do professor não representa nenhum novo quantum de valor, afinal este servidor não produz uma “coisa” (Ding) em que se cristaliza o dispêndio excedente de energia humana como “acréscimo de novo valor ao objeto de trabalho” (MARX, 1983, 164), mas apenas converteu um determinado valor, já existente como dinheiro que estava nos bolsos dos pais dos alunos, em capital para o capitalista dono da escola. Como Lessa (2011, p. 168) costuma dizer, do ponto de vista da totalidade social, “é uma autêntica troca de soma de zero”. Em última instância, portanto, assim como outras camadas, este trabalhador produtivo (productive labourer) também vive da riqueza gerada pelos operários.

Diante deste fato, resta comentar, ainda que também brevemente, sobre a relação entre essas duas classes trabalhadoras (labouring classes) assalariadas e exploradas: classe operária e classe servidora. Em primeiro lugar, fazendo jus a complexidade dialética, trata-se de uma relação ambivalente: identidade da identidade e da não identidade. Segundo ponto, a diversidade funcional dos assalariados de serviços é tão grande que a sua relação com o operariado também se apresenta em formas e intensidades variadas. Nessa classe de serviços há camadas precarizadas (muitas pessoas recebendo um salário mínimo ou menos), outras especializadas (muitas vezes com cursos universitários: a Universidade Burguesa tem como uma das metas formar servidores qualificados e, quiçá, “empreendedores”) e até alguns milionários. Vejamos um caso de servidores realizando exploração direta sobre operários para ilustrar essa contradição através de uma situação extrema. Quando fala do salário por peça, Marx descreve um caso destes:

Como qualidade e intensidade do trabalho são controladas aqui pela própria forma de salário [o salário por peça], esta torna grande parte da supervisão do trabalho supérflua. Ela constitui, por isso, a base tanto do moderno trabalho domiciliar anteriormente descrito como de um sistema hierarquicamente organizado de exploração e opressão. Este último possui duas formas fundamentais. O salário por peça facilita, por um lado, a interposição de parasitas entre o capitalista e o trabalhador assalariado, o subarrendamento do trabalho (subletting of labour). O ganho de intermediários decorre exclusivamente da diferença entre o preço do trabalho que o capitalista paga e a parte desse preço que eles realmente deixam chegar ao trabalhador. Esse sistema chama-se na Inglaterra caracteristicamente de sweating-system (sistema de suador). Por outro lado, o salário por peça permite ao capitalista concluir com o trabalhador principalmente – na manufatura com o chefe do grupo, nas minas com o quebrador de carvão etc., na fábrica com o operador de máquina propriamente dito – um contrato de tanto por peça, a um preço pelo qual o próprio trabalhador principal se encarrega da contratação e pagamento de seus trabalhadores auxiliares. A exploração dos trabalhadores pelo capital se realiza aqui mediada pela exploração do trabalhador pelo trabalhador (MARX, 1984, p. 141).

Ao falar de um tipo de “exploração do trabalhador pelo trabalhador”, Marx pode parecer para alguns um sujeito confuso, ambíguo, em determinadas categorias – uma conclusão, por exemplo, que o português (protomarxista) João Bernardo chegou[4] –, porém, isso só ocorre quando se perde o chão dos fundamentos da teoria, as distinções ontológicas e a complexidade das relações sociais que se sobrepõem em níveis de interação – ou seja, o caminho expositivo almejado aqui para se chegar ao tema, propriamente dito, das classes sociais na sociedade burguesa. Sem contar os casos de um mesmo indivíduo pertencendo a duas classes distintas em lugares e ocupações diferentes, falando de um mesmo ambiente, uma exploração de worker por worker (tal como caracterizamos work aqui) é algo antinômico. Mas, neste caso, se pensarmos em exploração de labourer por labourer é perfeitamente possível e coerente. Além disso, quando se busca uma consistente fundamentação ontológica da apreensão teórica evita também fazer as dissoluções das atividades. Vejamos este exemplo acima de Marx: o fato de algum destes atravessadores e chefes citados também ser um operário, isto é, realizar a atividade fundante (work), junto com os comandados, não muda o fato. Isso porque, ao ocupar duas funções sociais na mesma unidade produtiva, há uma relação de exploração entre ele e seu patrão e outra relação de exploração entre ele e seus “colaboradores”. Contradições qualitativamente distintas. Como foi dito anteriormente, Lukács, na análise dos estranhamentos (Entfremdungen), observa como estas alienações (Entäusserungen) têm uma base no complexo econômico, porém se esparramam pela sociabilidade de maneira diversificada e com (relativa) autonomia. Por isso, ele cita aquele exemplo literário de E agora, Zé Ninguém?[5] (LUKÁCS, 2013, p. 633), de dois militantes combativos (combatem estranhamentos mais gerais, estrutural-econômicos), mas, dentro de casa, são opressores da esposa/mãe e filha/irmã (eles são os protagonistas causadores deste estranhamento em particular). Mutatis mutandis, a relação econômica da classe assalariada de serviços é também assim (vítima-algoz e algoz-vítima), levando em conta as particularidades de cada caso na modesta diversidade de apropriação (Aneignung) dentro da classe operária e na gigantesca diversidade de apropriação dentro da classe servidora:

Os assalariados não proletários[6] possuem, portanto, identidades e contradições tanto com a burguesia como com o proletariado. Tais identidades e contradições dos setores assalariados não proletários decorrem da sua inserção na estrutura produtiva. Sua função social, de um modo geral, é auxiliar na reprodução das relações sociais burguesas e, neste preciso sentido, tais setores atuam predominantemente como força auxiliar na reprodução do capital. Contudo, a ampliação das relações capitalistas a todos os poros da sociedade faz com que, de forma crescente, as profissões ditas liberais sejam convertidas em fonte de lucro – sejam incorporadas à valorização do capital, transformando advogados, médicos etc. em trabalhadores assalariados. Esta tendência marcante do desenvolvimento capitalista contemporâneo faz com que aumentem as contradições reais, materiais, destes profissionais para com a burguesia. Contradições estas qualitativamente distintas das do proletariado, mas nem por isso pouco importantes para com o processo histórico (LESSA, 2011, p. 180-181).

Como a heterogeneidade e a funcionalidade servidora desta classe impede que ela se unifique em interesses unívocos em um bloco político próprio e coeso, nos momentos em que há acirramento do antagonismo entre burguesia e operariado em determinada conjuntura (ou se quiser, em termos ideológicos, o confronto agudo entre perspectiva burguesa de manutenção da ordem e perspectiva socialista de superação da ordem), as circunstâncias tendem a dividir, de maneira mais nítida e intensa, o apoio político de setores dessa classe para os dois polos classistas fundamentais. Fenômeno semelhante ocorre com as outras classes de transição. Na Revolução Russa, por exemplo, apesar de não ser a classe protagonista das demandas principais que fundamentaram a insurreição socialista em 1917 (após a Revolução de Fevereiro), o campesinato (esmagadora maioria da população russa), ao empunhar a bandeira da “Terra”, teve um papel decisivo como colaborador na particularidade daquele processo revolucionário[7].

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Notas:
[0] Versão levemente modificada (apenas em determinados termos) da dissertação de mestrado: AYRES, P. Classes fundamentais e classes de transição: Lukács e os fundamentos histórico-ontológicos das classes sociais. CCH-DFL/PGF, Universidade Estadual de Maringá (UEM). Maringá, pp. 148-155, 2018.
[1] A constante classificação que usa os termos ingleses work  e labour, referindo-se, respectivamente, à atividade fundante e ao trabalho abstrato, é uma proposta analítica apresentada na dissertação para melhor visualizar como o termo polissêmico trabalho possui diferentes significados, inclusive na tradição marxista.
[2] O termo original utilizado na dissertação é serviçariado e, inclusive, nomeia esse tópico na referida obra  (“Sobre o serviçariado”), porém, atualmente, o termo servidorismo nos parece com mais potencial de absorção para nomear essa classe social.
[3] Para uma crítica das interpretações sociológicas da burocracia, cf. Botelho (2008).
[4] Cf. Lessa (2011, p. 192-195).
[5] Kleiner Mann, was nun? (Alemanha, 1932), romance de Hans Fallada.
[6] Lessa usa o termo proletariado no sentido estrito de operariado. Todavia, também é possível encontrar, na tradição marxista, o uso do termo em dois níveis mais abrangentes: como sinônimo de trabalhadores produtivos e, mais amplo ainda, como sinônimo de trabalhadores assalariados (ou seja, englobando as duas classes assalariadas).
[7] Em sentido oposto, o campesinato (isto é, a sua fração predominante) se movimentou de maneira reacionária no Império napoleônico. O jovem Lukács (1974, p. 75) comenta que nestas classes médias o “interesse de classe orienta-se somente em função de sintomas de evolução e não na própria evolução, em função das manifestações parciais da sociedade e não da estrutura de conjunto da sociedade” (grifos do autor). Assim sendo, elas são “conduzidas sob bandeiras ideológicas opostas” dependendo da conjuntura.
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Referências bibliográficas:
LESSA, S. Trabalho e proletariado no capitalismo contemporâneo. 2ª ed. São Paulo: Cortez, 2011.
LUKÁCS, G. Para uma ontologia do ser social II. Trad. Nélio Schneider, Ivo Tonet e Ronaldo Vielmi Fortes. São Paulo: Boitempo, 2013.
MACHADO, G. O lugar dos “serviços” em ‘O capital’ de Marx. In: Teoria e Revolução. Set./2017. Disponível em: <https://teoriaerevolucao.pstu.org.br/o-lugar-dos-servicos-em-o-capital-de-marx/>. Acesso em: 23/10/2017.
MARX, K. O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. Trad. Regis Barbosa e Flávio R. Kothe. São Paulo: Nova Cultural, t-1: 1983 e t-2: 1984.
______. Grundrisse: manuscritos econômicos de 1857-1858: esboços da crítica da economia política. Trad. Mario Duayer, Nélio Schneider, Alice Helga Werner e Rudiger Hoffman. São Paulo: Boitempo, 2011b.
VIANA, N. “Os movimentos sociais populares”. In:______. (Org.). Movimentos sociais: questões teóricas e conceituais. Goiânia: Edições Redelp, p. 71-104, 2016.
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domingo, 25 de abril de 2021

Trabalho e sujeito revolucionário no debate contemporâneo

O curso Trabalho e sujeito revolucionário no debate contemporâneo foi disponibilizado por Efrain Macial e Silva, que editou as aulas em nove partes. Aqui estão a Parte 8 e a Parte 9, onde, por fim, emerge a análise das classes sociais no modo de produção capitalista e, junto a isso, a questão do operariado no mundo contemporâneo.

 
 
 

por Sergio Lessa
UFRN/2006
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segunda-feira, 19 de abril de 2021

Poemas sobre a classe operária: É e Não É



É e não é
Paulo Ayres

Trabalho intelectual não é trabalho
No sentido estrito e no nível de ser
Nacional-socialismo não é socialismo
Isso é algo básico para saber

Serviçariado não é classe fundamental
Só os salários não determinam nada
Lúmpen-proletariado não é proletariado
Vivem uma rotina marginalizada

Se colaborador é um eufemismo
Para o explorado é apenas um apelido
A classe operária é a base proletária
Na produção diária o social é erguido

O que é e o que não é?
A dialética na sua frente
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domingo, 18 de abril de 2021

Poemas sobre a classe operária: Somos Quem Podemos Ser II


 
Somos quem podemos ser II
Paulo Ayres

Um dia me corrigiram:
não é operário gente como o Galvão!

O relativismo assalariado
a ontologia liquefeita
a arrogância suspeita
saíram da frente da minha visão.

Outro dia me sopraram:
a resposta da alternativa dois
e depois sem o cisco no meu olho
falo aos quatro ventos da exploração.

Troquei os meu óculos
refiz os meus cálculos
mudou a minha imagem no espelho
diferencio a produção e os aparelhos
posso ver as letras minúsculas do falso contrato.

Parei o efeito borboleta
olhei pela minha luneta
uma estrela vermelha, azulada de perto
um edifício de tijolos, operários e cimento
posso ver, no momento, para além dos outdoors.

Somos aquilo que fazemos
somos quem podemos ser
independente de perceber,
fazemos o que somos.
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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

A contabilidade do PNB através da teoria subjetivista do valor

por Lauro Campos

A Contabilidade Social adotada na União Soviética se mantém fiel à teoria do valor trabalho e, por isso, inclui no Produto Nacional Bruto apenas os bens obtidos por sua economia em dado período de tempo.

A Contabilidade Social dos países capitalistas está vinculada implicitamente à teoria marginalista do valor. Somente a partir de uma aceitação da teoria marginalista, subjetiva, seria possível homogeneizar bens e serviços, somando-os como se fossem homogêneos em sua natureza. Quando se considera que bem econômico é tudo que possui ofelimidade ou que tem utilidade para o consumidor, trabalho produtivo e serviço improdutivo passam a ser homogêneos e o resultado de ambos um bem econômico, desde que a avaliação final do consumidor o erija àquela categoria.

Essa homogeneização realizada pela Contabilidade Social não seria admissível em nenhuma análise feita nos moldes clássicos ou nos pressupostos da teoria do valor trabalho: só a concepção marginalista veio permitir sua montagem.

Considerando o Produto Nacional Bruto como total de bens e serviços obtidos por uma economia nacional em determinado período, a visão do fenômeno básico apontado por Marx passou a ser muito difícil. Se se computassem apenas os bens (excluindo-se os serviços), viria à tona que o fluxo físico de oferta de bens não encontraria o correspondente poder de compra por parte dos agentes diretamente ligados ao processo de produção. Verificar-se ia que o setor terciário representa um subproduto dos setores primário e secundário que funciona como um mecanismo de correção da demanda global em relação ao fluxo físico de oferta dos setores industriais de produção. Os investimentos públicos em setores não reprodutivos (fora de I e de II) permitem o aumento da capacidade de consumo da coletividade e a realização do correspondente out put de bens de consumo, dentro de certos limites.

Logo, mesmo a Contabilidade Social moderna afastou, apenas aparentemente, a teoria do valor que permanece encoberta, determinando seu aparatus conceitual e conduzindo seus resultados.

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CAMPOS, L. A crise da ideologia keynesiana. Rio de Janeiro: Campus, 1980, pp. 100-101.
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segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Fetichismo da técnica

 
por Sergio Lessa

Com apenas três exceções, a saber, [Duncan] Gallie, [André] Gorz (em outros textos que não o Adeus ao proletariado) e João Bernardo, se considerarmos o leque que abrimos de [Serge] Mallet e [Pierre] Belleville, nos idos de 1963, até [Ricardo] Antunes e [Marilda] Iamamoto, em 1999, apesar da enorme diferença de todos os autores, há algo que os aproximam: consideram que as transformações técnicas e as estratégias gerenciais seriam a causa das transformações nas relações de produção e, por extensão, a causa da alteração nas classes sociais. Uma “sociedade de produtores libertos” “pode aparecer como processo lógico de evolução técnico-econômica”, diz Mallet (Mallet, 1963, p. 175); Belleville postula que o desenvolvimento tecnológico superou a separação entre o trabalho manual e o intelectual (Belleville, 1963, p. 11). Vimos como algo muito semelhante pode ser encontrado em [Adam] Schaff e em [Jean] Lojkine. Para o primeiro, o desenvolvimento tecnológico simplesmente eliminaria o proletariado ao robotizar as linhas de montagem; o segundo considera que o desenvolvimento tecnológico teria nos conduzido a uma sociedade pós-mercantil, portanto, não mais capitalista. Os exemplos são muitos. E são bastante diferentes. Para alguns, a inovação tecnológica ou descoberta “revolucionária” é a automatização, para outros, a informatização e a robotização; para alguns se trata do aprofundamento do taylorismo, para outros de sua substituição pelo toyotismo; alguns argumentam o fim da alienação do trabalho pela sua versão flexibilizada, outros fazem o exato oposto. Uns argumentam que as alterações se dariam por uma mudança nos padrões de consumo, outros, pela alteração nos padrões dos conflitos sociais e para outros, ainda, pela alteração da percentagem da população distribuída entre os setores econômicos. Diferenças consideradas, os autores que examinamos derivam das transformações tecnológicas a alteração da sociedade que consideram essencial:[1] o fim do proletariado.

Tal como a versão logicizada da identidade da identidade com a não identidade de Hegel (ou sua fórmula esterilizada da negação da negação do marxismo vulgar) é capaz de converter a água em vinho,[2] a tecnologia produzida sob as relações de produção capitalistas teria poderes mágicos capazes de reverter o próprio modo de produção que está em sua origem. (Kumar, 1997, p. 49) Como seria isto possível?

Nenhum dos autores que analisamos sequer considera o problema. Tomam como seguro e comprovado que o desenvolvimento tecnológico é o que determinaria o desenvolvimento histórico. Tal concepção condiz com uma versão banalizada da história do capitalismo segundo a qual, por exemplo, teria sido a descoberta da máquina a vapor a gênese da Revolução Industrial ou, então, que teria sido a descoberta da linha de montagem por Ford a causa do fordismo. Tal concepção ignora que a descoberta da máquina a vapor ocorreu no momento em que a existência de um mercado mundial suficientemente amplo e organizado, historicamente inédito, se articulou à presença de massas de trabalhadores expulsas do campo e dispostas a trocar sua força-de-trabalho por salários. Foi o desenvolvimento das relações capitalistas em escala planetária e, mais imediatamente na Inglaterra, que tornou possível e necessária a transição da manufatura à indústria. Foi neste momento que a máquina a vapor tornou-se útil e foi desenvolvida.[3] As causas da Revolução Industrial não coincidem com a descoberta da máquina a vapor: são a ela anteriores. Marx, no Livro I de O capital, comenta que o desenvolvimento meramente tecnológico de fontes de energia eólica e animal ou até mesmo o aparecimento de “máquinas” no período manufatureiro

não revoluciona[ra]m o modo de produção. A própria máquina a vapor como foi inventada no final do século XVII, durante o período manufatureiro, e continuou a existir até o começo dos anos 80 do século XVIII, não acarretou nenhuma revolução industrial. (Marx, 1983, p. 10)[4]

O mesmo pode ser dito da linha de montagem primeiro utilizada por Ford na fabricação do Modelo T. Ela surgiu em um momento de expansão do capitalismo estadunidense que tornava possível e necessária a conversão do mercado em direção ao consumo de massas. Coincidiu, ainda, com a crise de 1920-22 que colocou milhares de trabalhadores na rua (Leite, 1989, p. 67). A linha de montagem é consequência, e não causa primeira, da evolução do capitalismo monopolista em direção ao binômio/Estado de Bem-Estar.

Se nos detivermos no desenvolvimento econômico de todo o século XX, este fato é ainda mais evidente. Há algum setor econômico, da moda à indústria bélica, do cinema à medicina, que não tenha nas necessidades de reprodução do capital o motor predominante do desenvolvimento tecnológico? Não é o enorme desenvolvimento do complexo industrial militar, e do asfixiante peso da guerra no século XX, uma indicação precisa de como é o capital que move a técnica, e não o contrário?[5] Hoje, tantas décadas após um Mallet, e já anos suficientes após um Schaff, Negri ou Lojkine, o desenvolvimento tecnológico elogiado por eles conduziu a qualquer coisa que não seja à reprodução das relações capitalistas de produção? A nossa história mais recente não é testemunha do fato de que cada modo de produção desenvolve técnicas necessárias à sua própria reprodução e, portanto, que entre a técnica e as relações de produção, o momento predominante [übergreifendes Moment] cabe a estas últimas? A evolução tecnológica contemporânea não é mais uma evidência de que qualquer “desenvolvimento da força produtiva do trabalho” se destina a “baratear mercadorias e a encurtar a parte da jornada de trabalho que o trabalhador precisa para si mesmo, a fim de encompridar a outra parte da sua jornada de trabalho que ele dá de graça para o capitalista”? Não é a tecnologia “meio para a produção (Mittel zur Produktion) de mais-valia”? (Marx, 1985, p. 7; Marx, 1975, p. 391)[6]

Vale relembrar ainda as duras críticas de Marx aos “apologistas” do capital que argumentam que o desemprego e a miséria dos trabalhadores seriam exigências inerentes à própria maquinaria.

As contradições e os antagonismos inseparáveis da utilização capitalista da maquinaria não existem porque decorrem da própria maquinaria, mas de sua utilização capitalista. (Marx, 1983, p. 55-6)

O momento predominante [übergreifendes Moment] não se localiza na técnica, mas nas relações sociais que a determinam.

(...) considerada em-si[,] a maquinaria encurta o tempo de trabalho, enquanto utilizada como capital aumenta a jornada de trabalho; em si, facilita o trabalho, utilizada como capital aumenta sua intensidade; em si, é uma vitória do homem sobre a força da Natureza, utilizada como capital submete o homem por meio da força da Natureza; em si, aumenta a riqueza do produtor, utilizada como capital o pauperiza etc. (Marx, 1983, p. 55-6)

De uma outra perspectiva, tal fato é atestado pelas investigações empíricas mais recentes acerca da evolução das relações de produção via-à-vis às novas tecnologias. Kumar, por exemplo, após análise de vários teóricos que postulam a tese segundo a qual o pós-fordismo seria, de algum modo, pós-capitalista, lembra que

o capitalismo pós-fordista é, ainda, afinal de contas, capitalismo. É impulsionado hoje e sempre pelo motor do processo de acumulação. A reestruturação implícita no pós-fordismo tem a intenção de fortalecer, e não enfraquecer o capitalismo. (Kumar, 1997, p. 62; vf. tb. p. 164)

Quando não se propõem a generalizações de difícil sustentação, até mesmo os estudos que se aproximam da mainstream da sociologia contemporânea são, também, ricos em indícios desta complexa subordinação da tecnologia às relações de produção. Afirma Ruy Quadros Carvalho, por exemplo, sobre os impactos das novas tecnologias na indústria automobilística no Brasil:

Colocando estas ideias numa formulação mais abrangente, poderíamos dizer que o primeiro plano em que o desenvolvimento tecnológico é influenciado pelas relações de poder entre capital e trabalho é o das políticas públicas de Ciência e Tecnologia e Desenvolvimento Industrial, onde se define, em grande parte, no capitalismo contemporâneo, a orientação que tomarão os programas privados de pesquisa e desenvolvimento e os programas de incentivo à modernização industrial. (Carvalho, 1987, p. 29)

Ao investigar o seu impacto sobre a divisão sexual do trabalho, Helena Hirata constata que “A divisão sexual do trabalho não parece (...) evoluir no mesmo diapasão que a história da tecnologia, mas ser submetida a um peso histórico que torna possível apenas o deslocamento das fronteiras do feminino e do masculino, jamais a supressão da própria divisão sexual”. (Hirata, 2002, p. 218) Citando vários estudos sociológicos e antropológicos, em países e em períodos de tempo bastante distintos, Hirata demonstra com muita pertinência que as “relações de poder e de autoridade” (Hirata, 2002, p. 218) predominantes na sociedade predominam também na esfera de produção apesar das pretensas potencialidades das novas tecnologias em superar esta situação. (Hirata, 2002, p. 216 e ss.) Argumenta, com bases nestas investigações, que

Partindo (...) da empresa, assim como da sociologia das organizações e sociologia industrial, pude ver, cada vez com mais clareza, que a empresa não é uma entidade isolável, analisável em si, e que uma abordagem limitada à empresa nos deixava sem nenhuma explicação de uma série de fenômenos. Daí a necessidade de levar em conta as horas de trabalho, o trabalho doméstico, as relações homens/mulheres, etc. Por não integrarem esses elementos, as análises da sociologia das organizações e da sociologia industrial desembocam, em geral, em aporias. (Hirata, 2002, p. 247)

Tem toda razão a autora ao defender a tese de que a divisão sexual do trabalho não é fundada pela especificidade das tarefas ou dos processos de trabalho enquanto tais, mas sim pelas “exigências do sistema produtivo em cada período histórico” (Hirata, 2002, p. 268), do mesmo modo pelo qual a divisão entre o trabalho manual e intelectual, e sua oposição “como inimigos”, não decorre de uma mera divisão técnica do trabalho, gender blind (para utilizar a expressão de Hirata) ou class blind (acrescentamos nós). Tal como a divisão sexual do trabalho decorre da propriedade privada e do patriarcalismo por ela fundado, a divisão entre o trabalho manual e o trabalho intelectual decorre da divisão da sociedade em classes; e a sua “separação” até se “oporem como inimigos” — nos termos marxianos — se explicita plenamente ao atingirmos o modo de produção capitalista desenvolvido. As “formas” da divisão sexual e da oposição entre o trabalho manual e o intelectual próprias a diferentes tecnologias podem alterar apenas o modo de se apresentar — jamais a essência — destas determinações ontológicas da socialidade baseada na exploração do homem pelo homem. Retomemos Kumar, ainda que não possamos acompanhá-lo na aproximação a Rorty que propõe. Ao criticar as teorias da “sociedade de informação”, afirma que

A nova tecnologia (...) está sendo aplicado em uma estrutura política e econômica que confirma e reforça padrões existentes, ao invés de gerar outros. O trabalho e o lazer são ainda mais industrializados, ainda mais submetidos a estratégias fordistas e tayloristas de mecanização, rotinização e racionalização. As desigualdades sociais existentes são mantidas e ampliadas. Abre-se um novo ‘hiato de informação’ entre os produtores e os usuários da nova tecnologia e os que — cidadãos comuns, trabalhadores semiespecializados, países do Terceiro Mundo — são seus clientes passivos, compradores e consumidores. Há abundância de informação, mas pouco interesse em corporificá-la em um arcabouço de conhecimentos, quanto mais cultivar a sabedoria em seu uso. O conhecimento e a informação, que antes figuravam entre os recursos mais públicos e mais disponíveis na sociedade, tornaram-se agora privatizadores, foram transformados em mercadorias, expropriados para venda e lucro. (Kumar, 1987, p. 44).

E, ainda, não há qualquer indício de que o computador restabeleceria “o controle humano sobre a produção”, como postularam [Michael] Piore e [Charles] Sabel. (Kumar, 1997, p. 59) A investigação de Ruy de Quadros Carvalho é uma importante fonte de informações acerca da relação entre as novas tecnologias, baseadas em microprocessadores, e o controle da força de trabalho. Realizada no início da década de 1980, a pesquisa tinha a preocupação de identificar as características do que lhe parecia ser, naquele momento, a transição das indústrias no Brasil a um novo patamar de produção, talvez na esteira do que, então, propunha [Benjamin] Coriat. Mesmo naquele momento em que a entrada das novas tecnologias e estratégias gerenciais era uma relativa novidade, ele já constatava que, no interior das indústrias automobilísticas, havia uma intensa conexão entre as novas formas de se produzir e o controle do trabalho operário. Descrevendo a introdução dos robôs, por exemplo, Carvalho assinala que:

(...) foram introduzidos sete robôs de solda a ponto distribuídos nas áreas de produção dos subconjuntos. Embora a gerência tenha justificado a introdução dos robôs pela sua superioridade de soldagem em operações que exigem uma precisão difícil de obter pelo trabalho manual, ficou-nos a impressão de que sua função principal é marcar o ritmo de trabalho, como veremos adianta. (Carvalho, 1987, p. 126).

Após descrever a nova linha de montagem, continua Carvalho:

(...) apesar de ocorrerem eventuais atrasos, porque a circulação depende do acionamento manual de todos os botões, basicamente o ritmo de trabalho e de movimentação das máquinas de transferência segue o ritmo dos robôs. (...) A redução dos postos de trabalho de soldagem de conjuntos pequenos e a eliminação do trabalho manual nas operações mais difíceis facilitaram a predeterminação dos tempos de trabalho com maior realismo (...). (Carvalho, 1987, p. 127 – itálicos no original)

Desse modo,

(...) a adoção da nova tecnologia abriu a oportunidade — aproveitada pelas empresas — de introduzir certos mecanismos na organização da produção que aumentaram significativamente o controle técnico sobre o conteúdo, o ritmo e a intensidade do trabalho, em detrimento da capacidade dos trabalhadores de produção de influir sobre o que acontece na fábrica. (...) Efetivamente, a nova organização do trabalho permite às empresas auferir economias de mão de obra não apenas relativas à substituição direta de homens por soldadores automáticos e equipamentos de circulação, mas também relativas ao melhoramento, em múltiplas formas, do aproveitamento do tempo de trabalho (...) dada a ritmação imposta pelas máquinas, e trabalha-se mais intensamente. (...).

Não apenas se “trabalha mais intensamente”, como

(...) também reduziu sua dependência da força de trabalho para garantir esta [requerida] qualidade. Todas as operações estratégicas foram automatizadas (...) [com o] aumento do poder de comando da gerência sobre o processo produtivo como um todo. Com um fluxo de produção mais contínuo, sem pontos de estrangulamento, torna-se mais factível fazer cumprir os planos de produção. (...) O fato é que os novos equipamentos associados aos novos esquemas de organização do trabalho concebidos pelas empresas resultaram no incremento do controle. A configuração concreta que assumiu o novo processo de trabalho (tecnologia mais organização do trabalho) é decorrente de uma opção gerencial orientada pelo objetivo da redução dos custos de mão de obra, via subordinação e intensificação do trabalho. (Carvalho, 1987, p. 130-1 – itálicos no original)

Este e outros estudos indicam que, tal como em Marx, também hoje a “oposição como inimigos” de classe entre o trabalho manual e o trabalho intelectual tem seu fundamento no fato de que o trabalho intelectual consubstancia o controle da classe dominante sobre os trabalhadores manuais e, nos nossos dias, do capital sobre o trabalho. O fato de que este ou aquele operário, nesta ou naquela posição de uma dada fábrica, ser obrigado pelas novas tecnologias a ser “flexível” e a cumprir inclusive atividades como as de controle de qualidade, não altera sequer um átomo desta situação ontológica de fundo: o operário assume as novas tarefas, digamos, não manuais, porque obrigado pelo capital. Além de sua função específica de há alguns anos, agora, sem sequer receber a mais por isso, executa também outras funções que, antes, eram destinadas aos “feitores”, “chefes de oficina”, “mestres”, “controladores”, etc. Esta transformação, ao invés de ser um sinal de emancipação do trabalho, é rigorosamente o oposto: uma forma ainda mais bárbara de exploração do trabalho pelo capital.

Do ponto de vista empírico, não há qualquer indício significativo de que a técnica seria predominante [übergreifendes] no desenvolvimento das relações de produção — nem no passado, nem no presente. Nada indica que o mero desenvolvimento de tecnologia estaria hoje em dia varrendo as relações capitalistas de produção para a lata de lixo da história, abolindo as classes sociais ou dissolvendo a contradição antagônica proletariado/burguesia em uma mais ampla contradição entre a condição assalariada versus capital.

Além de não contar a seu favor qualquer indício histórico ou empírico significativo, vale lembrar que a tese segundo a qual o desenvolvimento da técnica seria a causa determinante da história não é nova. Já na passagem do século XIX ao século XX ganhou força no interior da II Internacional a concepção de que a humanidade teria passado do modo de produção primitivo ao modo de produção asiático ou escravista e, deste último, ao feudalismo e ao capitalismo, graças ao desenvolvimento de novas tecnologias que teriam tornado anacrônicas as relações de produção existentes a cada momento.

Tal como estas teses não são recentes, também são antigas as réplicas a elas. Na década de 1920, as críticas de Lukács à Teoria do materialismo histórico de [Nicolai] Bukharin recolocaram o problema em seus devidos termos. Para o jovem Lukács, o fundamento de tais teses é uma concepção de objetividade social muito próxima ao “materialismo burguês”, que cancela o fato de que “todos os fenômenos econômicos ou ‘sociológicos’ derivam das relações sociais entre os homens”. (Lukács, 1974, p. 43-4) O que o autor húngaro quer dizer é que a técnica apenas pode se substanciar em meios de trabalho (ferramentas, máquinas, etc.) Enquanto meios de trabalho, a técnica comparece como mediação entre o homem e o seu objeto de trabalho (natureza ou matéria-prima, a natureza transformada, lembremos do Capítulo V acima). Se a técnica fosse a causa determinante da história, então as relações de produção seriam decorrências dos meios de trabalho, das ferramentas, máquinas, prédios, canais etc. (Marx, 1983, p. 151) Não seriam mais os homens que se organizam em sociedade para converter a natureza nos valores de uso dos quais necessitam mas, pelo contrário, seriam os meios de trabalho que organizariam o intercâmbio homem/natureza. As “relações sociais entre os homens”, nesta concepção, passam a ser decorrência dos meios de trabalho.

Esta tese possui duas grandes fragilidades. A primeira é que conduz a complicações teóricas rigorosamente insolúveis. Por exemplo: se for o desenvolvimento técnico a causa determinante do desenvolvimento histórico, qual o fundamento do próprio desenvolvimento da tecnologia? Basta colocar esta pergunta para que, na enorme maioria dos autores, seja imediatamente revogada a prioridade da tecnologia em nome de uma prioridade da ciência. Seria o desenvolvimento científico que moveria o desenvolvimento tecnológico que, por sua vez, determinaria o desenvolvimento histórico. Não são poucos, entre os autores que estudamos, os que se referem a uma “revolução técnico-científica” ou expressões do gênero. Deslocar da técnica para a ciência a causa primeira do desenvolvimento humano não faz mais do que deslocar a dificuldade. Pois, se a ciência, e não mais a tecnologia deve ser considerada a causa determinante do desenvolvimento histórico, qual seria o fundamento do desenvolvimento da própria ciência? Certamente não “relações sociais entre os homens”, já que estas seriam determinadas pela ciência com a mediação da técnica. Ainda que não se queira, esta fundação da história a partir do desenvolvimento tecnológico conduz a uma exterioridade e neutralidade da ciência (e, por consequência, da técnica) em relações às lutas de classes, em relação às “relações sociais entre os homens”, muito próximas ao positivismo. A ciência bastar-se-ia a si própria. Esta, segundo Lukács em seu texto de juventude, é a questão de fundo: o equívoco de Bukharin está em desconhecer que a ciência e a tecnologia são decorrentes do desenvolvimento das forças produtivas e, não, causas determinantes deste mesmo desenvolvimento. Ao dissociar o desenvolvimento da ciência e da técnica do complexo das forças produtivas, e ao elevar a técnica à causa determinante do desenvolvimento histórico, subordina-se toda a história a uma “objetividade” e “neutralidade” científica e tecnológica muito próxima, repetimos, ao positivismo. Nesse preciso sentido,

a técnica como fundamento autossuficiente do desenvolvimento é apenas um refinamento dinâmico deste naturalismo primitivo. Pois, se a técnica não é concebida como um momento do sistema de produção existente, se seu desenvolvimento não é explicado pelo desenvolvimento das forças sociais de produção (...) termina sendo um princípio como que transcendente, que se opõe ao homem como uma “natureza”. (Lukács, 1974, p. 45)

Em seu últimos trabalhos Lukács desenvolve e aprofunda esta sua posição. Não há qualquer possibilidade, no contexto categorial da Ontologia, de um meio de produção (mera mediação, trabalho morto) entre o homem e a natureza, converter-se em causa determinante do desenvolvimento histórico. Em uma rica e sofisticada argumentação, que não podemos senão resumir rapidamente neste momento,[7] demonstra como as novas necessidades e possibilidades geradas pelo trabalho (intercâmbio orgânico com a natureza) tendem a ter um peso maior na história do que as necessidades e possibilidades geradas nos outros complexos sociais. Um novo fato econômico, por isso, tendo a ter repercussões mais profundas, intensas e duradouras sobre o desenvolvimento histórico do que os fatos das outras esferas como a linguagem, a alimentação, a educação, a política etc.[8] Isto faz com que, na relação entre a economia e a totalidade social, caiba à economia o momento predominante [übergreifendes Moment]. Contudo, ao responder às possibilidades e necessidades postas prioritariamente pela economia, a totalidade social transfere aos outros complexos parciais os fatos primordialmente econômicos. E, dado que reside na economia o momento fundante da sociabilidade (o trabalho), ao ser a mediação entre os fatos econômicos e os outros complexos parciais, a totalidade social termina cumprindo a função de momento predominante [übergreifendes Moment] frente a cada complexo parcial dela partícipe. Em outras palavras, Lukács demonstra como há em Marx um complexo de determinações que se interpenetram e que, a cada momento, assumem novas configurações. Um momento é a relação entre a totalidade e cada complexo parcial. Nele, a totalidade é o momento predominante [übergreifendes Moment] no desenvolvimento de cada complexo social porque é a mediação entre a esfera da economia (que inclui o momento fundante de toda e qualquer formação social, o trabalho) e cada um dos complexos parciais. O segundo momento é a relação entre a totalidade social e o complexo da economia. Neste, cabe à economia o momento predominante [übergreifendes Moment] porque, para sermos brevíssimos, nela reside o momento fundante de toda socialidade: a conversão da natureza nos valores de uso indispensáveis à reprodução social.

Não apenas desta estrutura categorial está excluída a possibilidade de uma única e exclusiva causa de qualquer fenômeno social, como ainda não há qualquer possibilidade de esta causa única residir na técnica (nos meios de trabalho) ou na ciência. Em todo processo histórico há sempre e necessariamente um momento predominante [übergreifendes Moment], mas isto é completamente distinto de qualquer causa determinante única.

Uma última observação: uma concepção mais superficial poderia imaginar que da centralidade ontológica do trabalho para o mundo dos homens decorreria necessariamente a prioridade da técnica sobre as relações de produção. Para evitar mal-entendido, é necessário que nos detenhamos, ainda que rapidamente, também sobre esse aspecto da questão.

A centralidade ontológica do trabalho, tal como descoberta por Marx e explorada por Lukács em sua Ontologia, é o fundamento ontológico da prioridade das relações de produção sobre a técnica. Esta nada mais é que o desenvolvimento dos meios de produção, e eles são sempre os meios de produção de um dado intercâmbio dos homens com a natureza, intercâmbio este cuja forma histórica mais geral são os modos de produção propriamente ditos. Cada modo de produção desenvolve os meios de produção que necessita para se reproduzir enquanto tal e, correspondentemente, impede o desenvolvimento dos meios de produção que entram em choque com a sua essência. O escravismo não possibilitou o desenvolvimento das máquinas a não ser para a guerra, esta era uma determinação histórica insuperável das relações de produção escravistas. Analogamente, o feudalismo conheceu um desenvolvimento técnico muito mais acelerado que o escravismo e o modo de produção asiático porque as relações de produção feudais assim o possibilitaram. Não foi o desenvolvimento técnico que levou a derrocada do escravismo e, depois, ao surgimento do feudalismo; do mesmo modo como não foi o desenvolvimento tecnológico que levou a sociedade europeia do feudalismo ao capitalismo (e, as sociedades da América, Ásia e África, dos seus modos pré-capitalistas de produção ao capitalismo). Foi o surgimento de um novo modo de produção, com novas possibilidades de desenvolvimento para as relações de produção e, portanto, para a relação do homem com a natureza, que tornou possível e necessário o aparecimento das novas tecnologias. Não há, por isso, qualquer contradição entre se afirmar a validade da tese marxiana do trabalho enquanto categoria fundante do mundo dos homens e o predomínio ontológico das relações de produção sobre o desenvolvimento tecnológico. Muito pelo contrário, entre a prioridade ontológica do trabalho e o momento predominante [übergreifendes Moment] das relações sociais sobre o desenvolvimento da tecnologia há uma rigorosa articulação categorial.

Entre a argumentação de Lukács em 1920 e a da Ontologia contra as posições tipificadas pelo texto de Bukharin há um desenvolvimento evidente. E, neste particular,[9] a continuidade entre o Lukács de 1920 e o de 1960 evidencia-se ainda pelo fato de que os mesmos argumentos históricos são mencionados: nem na transição do escravismo romano ao feudalismo, nem na transição do feudalismo ao capitalismo, a técnica pôde ser identificada como causa determinante.[10]

A divisão capitalista do trabalho e suas relações de poder é o que produz as premissas sociais de um mercado de massa (dissolução da economia natural) (...) As premissas sociais das técnicas mecanizadas modernas, por conseguinte, surgiram primeiro, foram os produtos de uma revolução social centenária. A técnica é a consumação do capitalismo moderno, não sua causa inicial (Lukács, 1974, p. 47)

E, argumentando que certamente há uma influência do desenvolvimento da técnica no próprio desenvolvimento econômico, argumenta que “(...) esta interação recíproca de modo algum supera a real primazia histórica e metodológica da economia em relação à técnica”. (Lukács, 1974, p. 46)

Deixamos de expor, por uma questão de espaço, as análises feitas por Lukács das conhecidas passagens de Marx em Trabalho assalariado e capital e em Miséria da filosofia. Delas o filósofo húngaro retira novos elementos contra Bukharin e as concepções da técnica como causa determinante da história dos homens.[11]

Dos autores que examinamos, há dois campos distintos entre aqueles que defendem ser o desenvolvimento das novas tecnologias (a revolução técnico-científica em suas várias versões) o fundamento da desaparição do proletariado. Alguns argumentam que estaríamos vivendo a superação do capitalismo. Postular que o desenvolvimento tecnológico promovido pelo capital seria a este antagônico e que, por isso, conteria nele próprio a possibilidade de superação histórica da sociabilidade contemporânea significa partilhar de duas ilusões. A primeira, que a contraditoriedade do capitalismo seria tal que dele poderia linearmente surgir sua superação; que o capitalismo poderia se converter em outro modo de produção (pós-capitalista, pós-mercantil, socialista, comunista etc.) sem qualquer quebra da sua continuidade pela gênese revolucionária de uma nova essência da reprodução social. Ao tratar-se da conversão do capitalismo em socialismo, por exemplo, a substituição do tempo de trabalho socialmente necessário por um tempo disponível como essência da reprodução social[12] teria a marca da continuidade do desenvolvimento técnico sob a regência do capital, o que significa uma retomada das teses reformistas da II Internacional antes da Primeira Grande Guerra.

Postular que o desenvolvimento da técnica conduziria ao socialismo significa, ainda, compartilhar de uma segunda ilusão. A de que o desenvolvimento da tecnologia capitalista se contraporia à reprodução da propriedade privada burguesa.

São estas duas ilusões que servem de pressupostos às teses que, de Mallet a Negri, de Daniel Bell a Schaff, afirmam que o desenvolvimento tecnológico nos levaria pra além do capitalismo, pouco importando aqui se este além do capitalismo seria o socialismo, o comunismo de Negri, uma sociabilidade pós-mercantil ou pós-industrial, uma sociedade informática etc.

Há, todavia, entre os autores que concedem prioridade à técnica na explicação das transformações que estamos vivendo muitos que não compartilham destas ilusões. Argumentam que não estaríamos superando o capitalismo, que as transformações em curso intensificam a exploração do trabalho e, não, a superam. Contudo, postulam que o surgimento das novas tecnologias teria alterado a essência das classes sociais, de tal modo que o proletariado teria se dissolvido entre os assalariados ou entre a classe média. Entre nós, os exemplos mais marcantes são Antunes e Iamamoto, longe evidentemente de serem os únicos. Com todas s significativas e importantes diferenças que mantêm frente a autores como Negri, Schaff, Lojkine etc., confluem para uma concepção comum a todos eles: a de que a técnica seria a causa determinante das transformações societárias ao final do século XX. Ainda que dirigida contra [Anthony] Giddens, a observação de [Flávio] Aguiar é precisa:

Na prática, a tecnologia é entendida unilateralmente. Ou seja, a tecnologia — seja ela qual for — é considerada como um a priori que comanda e direciona as mudanças sociais. É como se a tecnologia não tivesse um substrato social que lhe alimente e lhe dê as suas configurações. No limite, a tecnologia só teria implicações ao nível do tecido social, onde este se veria despido do seu caráter determinante na produção tecnológica. A tecnologia, para as correntes sociológicas do mainstream acadêmico, é (quase) sempre uma causa mas nunca um efeito. (Aguiar, 2005)

Este “fetichismo” da técnica (Lukács, 1974, p. 44), repetimos, não é uma criação recente nem uma originalidade do debate contemporâneo. Pelo contrário, como muitas das suas principais teses, também essa determinação da história pela técnica é um revival de antigas teses. Nenhum, dos autores analisados, avoca para si a tradição de um Bukharin ou do marxismo da II Internacional, ainda que compartilhem de concepções semelhantes.

Há, todavia, nesse debate do papel histórico da tecnologia uma particularidade curiosa. A aproximação às teses reformistas da II Internacional de autores que consideram o desenvolvimento da tecnologia a causa determinante do desenvolvimento social também pode resultar de uma perspectiva em tudo diversa. Se, para tais autores, a tecnologia seria neutra em relação ao conflitos de classe de tal modo que seu desenvolvimento conduziria à superação do capitalismo, para outros autores o desenvolvimento da tecnologia também poderia ser o espaço da superação do capitalismo — mas pela razão justamente oposta. Para eles a técnica é uma relação imediatamente política, uma decorrência direta das relações de poder na sociedade. Em sendo política, a tecnologia passa a ser concebida como um campo de disputa entre os trabalhadores e o capital e a luta pelo controle da produção (e não mais, para retomar Marx de Trabalho, preço e lucro, pela “abolição do sistema do trabalho assalariado” (Marx, 1977, p. 378) passaria a ser ponto nodal da transformação da sociedade capitalista.

Um bom exemplo entre nós é o texto de Márcia de Paula Leite, O futuro do trabalho (Leite, 1989), relatório de uma pesquisa que realizou nos dois anos anteriores em duas fábricas paulistas. Seu ponto de partida é uma definição de técnica como uma “relação de força” entre os “grupos sociais envolvidos” (Leite, 1989, p. 26; tb. p. 39). Desse postulado inicial, ela conclui que a análise deve ser feita “não apenas a partir dos elementos econômicos”, mas também dos “aspectos políticos relacionados à questão da dominação dos produtores e da disputa pelo poder no interior dos estabelecimentos produtivos”. (Leite, 1989, p. 36) Aqui, opera-se a primeira redução importante: a relação de dominação na produção é tratada como uma questão “política”. Por questão política entende-se a “disputa travada cotidianamente” entre os “empregadores” que querem aumentar a produtividade e os trabalhadores que buscam o “controle do processo de trabalho” (Leite, 1989, p. 26), em uma formulação que não deixa de lembrar as teses de Mallet acerca do que ele entendia ser o novo objetivo de luta da nova classe operária: o controle da produção.

Como a luta política tem um necessário componente subjetivo, a “preocupação central” de seu livro será a “percepção” dos trabalhadores acerca das novas tecnologias, de modo a colocar em relevo

as transformações [que] vêm sendo experimentadas pelos trabalhadores e as imagens e representações que eles vêm construindo desse processo, através das quais eles buscam explicar realidade em que se encontram inseridos e a partir das quais eles vêm orientando suas opções e estratégias frente a ele. (Leite, 1989, p. 30).

Estaria nas “representações”, nas “imagens” dos trabalhadores, na “internalização subjetiva de suas condições de existência” (Leite, 1989, p. 30) a explicação de seu comportamento cotidiano.

Se, antes, a ‘relação de força” que seria a tecnologia tinha um componente político essencial (a dominação na produção era identificada à dominação política), agora a política é descartada, dando-se ênfase à vida cotidiana e à “internalização subjetiva” das “condições de existência”. (Leite, 1989, p. 30) Esta é uma passagem bastante problemática, mesmo no horizonte teórico de Leite. Pois, se o comportamento cotidiano dos trabalhadores será explicado através das suas “representações” e “imagens” e se estas não mais serão imediatamente políticas, quando se tratar da dominação nos locais de trabalho, qual o tipo de dominação que resta? Tendo afirmado a identidade entre a exploração econômica e a política, retirada a política, qual o tipo de dominação poderia ainda haver para Leite na vida cotidiana dos trabalhadores nos locais de produção?

O texto remete então a [E. P.] Thompson e a Agnes Heller de Para mudar a vida. Para postular uma tese ainda mais problemática:

A importância deste tipo de abordagem para a análise do processo de trabalho reside ainda no fato de que, em última instância, o aspecto subjetivo deve ser considerado também como parte integrante das condições objetivas de trabalho. (Leite, 1989, p. 34)

Estaria a autora querendo afirmar uma identidade sujeito-objeto próxima a Hegel? Ou simplesmente migrando para o idealismo subjetivo? O texto é confuso e não fornece respostas a estas questões. Não parece ter a autora consciência das implicações teóricas aqui envolvidas. Agora que o subjetivo virou objetivo (e vice-versa), trata-se de reduzir as classes sociais às suas experiências empíricas imediatas, entendidas “menos” pelos “aspectos políticos” ou pelas “condições materiais de vida” (Leite, 1989, p. 30) e mais pelas suas “imagens” e “representações” que expressariam a “internalização subjetiva de suas condições de existência”. (Leite, 1989, p. 30)

Neste momento do seu raciocínio, Leite não tem mais como evitar o confronto aberto com as teses de Marx. E o faz de uma forma pouco fiel ao autor alemão: a tese de Marx de que as classe seriam determinadas pelo lugar dos indivíduos na estrutura produtiva da sociedade é caracterizada como sendo incapaz de pensar a historicidade e evolução das classes sociais. Quem já se deu ao trabalho de ao menos folhear o 18 brumário de Luis Bonaparte — para não mencionar o volume I de O capital — sabe que o autor alemão demonstra ser esta relação com estrutura produtiva da sociedade o fundamento ontológico da fantástica plasticidade das classes sociais em cada conjuntura da história. Para Leite, todavia,

Ao se pensar na classe social não como uma categoria estática, definida a partir do lugar que os indivíduos ocupam no processo de produção, à qual corresponderiam necessariamente determinados interesses e, portanto, uma determinada consciência, mas sim como uma categoria histórica em constante evolução e transformação que se vai constituindo e se formando no próprio processo de lutas, a partir da maneira como os indivíduos vivem suas relações produtivas, é necessário ter-se em conta a dimensão ao mesmo tempo individual e coletiva desse processo. (Leite, 1989, p. 34-5).

Ou seja, para se “pensar” a classe social como uma “categoria histórica em constante evolução e transformação” “que se vai constituindo e se formando no próprio processo de lutas”, é “necessário ter-se em conta a dimensão ao mesmo tempo individual e coletiva desse processo”. Quem poderia discordar de tal tese? Contudo, ela está associada ao fundamental da concepção de mundo de Leite, qual seja, “pensar” as classes sociais “a partir do lugar que os indivíduos ocupam no processo de produção, à qual corresponderiam necessariamente determinados interesses e, portanto, uma determinada consciência”, seria conceber a classe social como uma “categoria estática”.

Pois bem, para argumentarmos, cancelemos a determinação ontológica das classes sociais a partir do local que ocupam na estrutura produtiva. Agora elas não mais se distinguiriam por “determinados interesses” oriundos “do lugar que os indivíduos ocupam no processo de produção”, mas sim, “pela internalização subjetiva de suas condições de existência”. Tais “condições de existência”, claro está, não mais podem se relacionar com a estrutura produtiva da sociedade. O que, então, seriam elas? As “representações” e o “imaginário” dos trabalhadores? E seriam representações, e comporiam um imaginário, acerca de quê? Retirado o fundamento ontológico consubstanciado pelo lugar que ocupam na estrutura produtiva, de onde viria o constante processo de transformação das classes sociais? Qual o seu fundamento? De onde surgiria a “constante evolução e transformação” das classes sociais, tanto do ponto de vista dos indivíduos que as compõem como também da coletividade que são?

O texto não dá uma resposta cabal a estas questões, mas esclarece que

Essas preocupações inscrevem-se num quadro teórico que se apoia numa noção de história aberta, que recusa a ideia presente em amplos setores do marxismo de uma teleologia onde o futuro já estaria inscrito nas características estruturais da sociedade atual e para a qual as únicas práticas importantes ou “consequentes” seriam aquelas dirigidas a este fim. (Leite, 1989, p. 36)

Pronto: “história aberta” significa, primeiro, reduzir o marxismo a uma concepção teleológica da história. Em seguida, adotar como critério de avaliação “práticas” as representações e o imaginário da vida cotidiana dos operários das duas fábricas paulistas que ela examina. E, como, nestas fábricas, pôde constatar que a revolução não estava na ordem do dia, conclui que os operários não seriam a classe revolucionária. Fazer uma dedução acerca do papel histórico de uma classe generalizando-se os resultados de uma pesquisa em apenas duas fábricas paulistas, operando tal generalização sem qualquer consideração para com o momento histórico contrarrevolucionário em que vivemos, é um procedimento metodológico por demais questionável, para dizer o mínimo.

Além deste problema, as concepções mal resolvidas da autora acerca da relação entre objetividade e subjetividade, que acima mencionamos, terminam cobrando o seu preço. Ao final, seu texto flutua entre duas diferentes concepções acerca da “evolução e desenvolvimento” da sociedade. Em alguns momentos, por exemplo, somos ditos que “a raiz da crise” do fordismo estaria na subjetividade e na resistência operárias. (Leite, 1989, p. 80) Poucas páginas depois, as coisas já não seriam mais assim. A crise do fordismo teria origem na esfera intrinsecamente produtiva (“diminuição dos ganhos de produtividade, redução do poder de compra dos mercados, elitização do consumo e incremento da competição intercapitalista mundial” (Leite, 1989, p. 83; 84). A ambiguidade da concepção da autora termina colocando-a nesta difícil posição de explicar o mesmo fenômeno social de causas inteiramente distintas.

O que interessa, todavia, para nosso estudo, é o que o texto de Leite tem de típico de uma postura comum na sociologia do trabalho: a tese de que as relações de produção seriam “políticas”, por isto entendendo-se um campo de disputa entre atores sociais com interesses distintos[13]. Esta é uma tese aparentemente muito à esquerda daquelas concepções que tomam as relações de produção como decorrências diretas e inevitáveis da tecnologia. Todavia, bem pesadas as coisas, esta aparência é enganosa, principalmente quando se trata da determinação das classes sociais e, em particular, das peculiaridades do proletariado. Por serem “campos de disputas”, por serem “políticas”, as relações de produção capitalistas evoluiriam segundo a correlação de forças a cada momento. Assim, com a devida pressão operária, as relações de produção capitalistas poderiam incorporar demandas dos trabalhadores de tal modo que a superação revolucionária do modo de produção capitalista é substituída pela evolução das relações de produção graças à pressão dos trabalhadores. A luta no interior da fábrica, mais diretamente sindical do que política, seria assim o locus estratégico da perspectiva operária e, correspondentemente, a revolução que aboliria o sistema do trabalho assalariado é reduzida a um desprezível projeto teleológico-autoritário. A grande e fatal ilusão desta tese é imaginar que, sem a revolução, a pressão operária sobre o desenvolvimento da tecnologia, uma pressão efetiva e real, possa resultar em algo diferente do que mais e mais tecnologia capitalista. Na luta sindical (bem como no Estado) o máximo que o trabalhador pode conseguir é representar-se como trabalhador abstrato, isto é, como o simétrico do capital. Para constituir-se enquanto sua negação histórica e, nesta esfera de conflitos, o campo resolutivo não está na disputa ao redor da tecnologia empregada nas empresas capitalistas.

De um modo inesperado, portanto, a tese de que as relações de produção seriam “políticas” termina em um resultado bastante semelhante àquelas teses que reduzem o desenvolvimento das relações de produção à evolução da tecnologia: em ambos as teses, é na esfera da tecnologia que se determinam as relações de produção e, portanto, as classes sociais. Em ambas o horizonte revolucionário é perdido, seja porque teria sido o desenvolvimento espontâneo, automático, da tecnologia a causa determinante da história, seja porque é na esfera da tecnologia que a pressão “política” dos trabalhadores desenvolverá as mediações decisivas para a transição do modo de produção capitalista ao socialismo.

Perguntamos, no início do capítulo, qual das teorizações que examinamos seria capaz de substituir a Marx, caso esta substituição fosse necessária. Podemos, agora, dar uma primeira resposta parcial a esta questão levando-se em conta o amplo campo de autores que conferem papel determinante ou preponderante à tecnologia, para que qualquer um deles pudesse substituir as categorias marxianas na análise do trabalho e das classes sociais, teria que demonstrar como, na relação entre modos de produção e técnica, caberia a esta o momento predominante [übergreifendes Moment]. E que, portanto, há história do capitalismo, seria o desenvolvimento da técnica que fundaria a possibilidade de superação da relações de produção capitalista e, não, o inverso. Isto está muito longe de ter sido realizado pelos autores que consideramos. Como argumentos, tomam por garantidos pressupostos que não demonstram, e são, por isso, sob este aspecto, teoricamente débeis, instáveis.

Contra este senso comum que hoje predomina na mainstream das ciências sociais, não apenas as investigações ontológicas como as de Lukács e Mészáros, análises dos textos de Marx ou nele inspirados, como as de Romero (2005) e Aguiar (2005), mas também estudos sociológicos como os de Hirata, Carvalho e Kumar, confluem para o fato de que, na relação entre a tecnologia e as relações de produção cabe a estas o momento predominante [übergreifendes Moment]. Foi assim na história, e continua sendo válido para as transformações que vivemos nas últimas décadas. Também neste particular, as teses marxianas têm sido confirmadas pelo desenvolvimento histórico e o teóricos que analisamos e que se propõem como superadores das teses marxianas têm ainda que demonstrar a validade deste seu pressuposto, qual seja, que a tecnologia é o momento predominante [übergreifendes Moment] do desenvolvimento histórico.

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Notas:
[1] De uma perspectiva diferente da nossa, cf. D. Gallie, In Search of the New Working Class, Cambridge, New York University Press, 1978, p. 4-5.
[2] Em uma crítica certeira a este tipo de
dialética”, [Jorge] Semprun colocou na boca de um de seus personagens em Que belo domingo [São Paulo, Nova Fronteira, 1978], o comentário de que, nas mãos dos partidos da III Internacional a dialética se converteu “Na arte e na maneira de sempre se cair de pé”. Sobre esta questão, é fundamental o único capítulo de sua Ontologia que Lukács deixou pronto para publicação, A falsa e a verdadeira ontologia de Hegel (Lukács, São Paulo, Ciências Humanas, 1978). Nesse belo e sintético texto, Lukács argumenta que, sem o momento predominante [übergreifendes Moment] descoberto por Marx, a dialética tende a dissolver as determinações do real que ela consegue refletir (a verdadeira ontologia) em uma concepção de mundo logicizada e idealista (a falsa ontologia).
[3] A literatura sobre esta relação entre tecnologia e história é muito grande. Nela, a obra de Bernal, Science in History (Nova York, Cameron Associates, 1954) é uma referência obrigatória.
[4] Em uma outra passagem, Marx volta-se a esta mesma questão. Comentando que os fósseis nas cavernas pré-históricas indicam as condições
“socioeconômicas desaparecidas”, acrescenta que “Não é o que se faz, mas como, com que meios de trabalho se faz, é o que distingue as épocas econômicas. Os meios de trabalho não são só mediadores do grau de desenvolvimento da força de trabalho humana, mas também indicadores das condições sociais nas quais se trabalha. Entre os meios de trabalho mesmos, os meios mecânicos de trabalho, cujo conjunto pode-se chamar de sistema ósseo e muscular da produção, oferecem marcas características muito mais decisivas  de uma época social de produção do que aqueles meios de trabalho que apenas servem de recipientes do objeto de trabalho e cujo conjunto pode-se designar, generalizando, de sistema vascular de produção, como, por exemplo, tubos, barris, cestas, cântaros etc”. (Marx, Le capital, tradução de J.-P. Lefbvre, Paris, Messidor/Éditions Sociales, 1983a, p. 151) Os fósseis podem indicar as condições “socioeconômicas desaparecidas porque estas, ao predominarem sobre o produzido, deixam no produto a marca da sociedade da qual são fundamento. E, de tudo o que foi produzido pelos homens, os meios de trabalho trazem mais evidências da situação histórica passada do que os meros “recipientes do objeto de trabalho, justamente porque consubstanciam de modo mais direto a sua relação com as condições “desaparecidas. É o desenvolvimento das relações de produção — no limite, o desenvolvimento da relações sociais — o fundamento do desenvolvimento tecnológico.
[5] Sobre a relação complexo industrial-militar e reprodução do capital ver Para além do capital de Mészáros, São Paulo, Boitempo, 2002, em especial o Capítulo XV sobre a
“produção destrutiva. E sobre as guerras e o seu peso na história do século XX, é impressionante o livro de Kolko, Century of War (Nova York, The New Press, 1994).
[6] Marx se refere, nesta passagem, à tecnologia como mediação para a produção de mais-valia e, não, como
“meio de produção que só pode ser natureza ou natureza transformada, como já vimos. No Capítulo V do Livro de O capital quando se refere a meio de produção emprega o termo Produktionsmittel e, nesta passagem, Mittel zur Produktion. Talvez seja mais preciso traduzir, nesta passagem, “meio para a produção do que por “meio de produção.
[7] Para um tratamento mais cuidadoso destas questões, cf. Lessa [Sociabilidade e individuação, Maceió, Adufal, 1995] e Lukács [Per una ontologia dell'essere sociale, v. II, Roma, Riunuti, 1981], em especial o capítulo dedicado à reprodução social. A menção a Bukharin está em Lukács, 1981, p. 341 (foi Gilmaisa Costa quem nos chamou a atenção para esta passagem da Ontologia).
[8] A importantíssima exceção histórica são os momentos revolucionários, nos quais a política, expressão da luta de classes, desloca o posto de momento predominante
[übergreifendes Moment] corriqueiramente ocupado pela economia. Durante as revoluções a própria forma da propriedade privada é determinada politicamente, por exemplo.
[9]
“Neste particular porque há uma discussão em curso sobre continuidade e ruptura entre o Lukács da década de 1920 e os resultados alcançados pela sua Ontologia, debate que ganhou um novo impulso com a publicação de Para além do capital de Mészáros (2002).
[10] Daniel Romero, aparentemente sem conhecer este texto de Lukács, retoma a mesma tese:
“Marx nos mostra como as relações de produção capitalistas são formadas antes da constituição de forças produtivas típicas do próprio modo de produção especificamente capitalista. (Marx e a técnica, São Paulo, Expressão Popular, 2005, p. 219) Apesar de possivelmente por demais marcado pelo logicismo de um [Enrique] Dussel e algumas afirmações questionáveis acerca do trabalhador coletivo e da relação entre subsunção formal e real do trabalho ao capital, este texto é uma boa surpresa no debate contemporâneo. Retoma o que nos parece ser a melhor tradição nesta área, qual seja, a recusa do “fetichismo da técnica.
[11] As passagens são as seguintes:
“Um negro é um negro. Apenas dentro de determinadas condições ele se torna escravo. Uma máquina de fiar algodão é uma máquina de fiar algodão. Elas se transformam em capital apenas em condições determinadas. Fora destas condições, ela tampouco é capital como o ouro é por si próprio moeda ou açúcar é o preço do açúcar. Na produção os homens não agem apenas sobre a natureza, mas também sobre os outros. Eles somente produzem colaborando de uma determinada forma trocando entre si suas atividades. Para produzirem, contraem determinados vínculos e relações mútuas e somente dentro dos limites desses vínculos e relações sociais se opera sua ação sobre a natureza, isto é, se realiza a produção. (Trabalho assalariado e capital, in K. Marx e F. Engels, Textos, São Paulo, Ed. Sociais, 1977, p. 69).
“Las máquinas no constituyen una categoría económica, como tampouco el buey que tira del arado. Las máquinas no son más que una fuerza productiva. La fábrica moderna, basada en el empleo de las máquinas, es una relación social de producción, una categoría económica. (Miséria de la filosofia, Moscou, Progressio, 1979, p. 108)
[12] Conferir, sobre esta relação entre o tempo de trabalho socialmente necessário e o tempo disponível, Tonet [A questão do socialismo, Curitiba, HDD Livros, 2002]; Lessa [
Comunismo, do que se trata?, in A. Galvão et. al. (orgs), Marxismo e o socialismo no século XXI, Campinas/São Paulo, Cemarx/Xamã, 2005]; e, sobretudo, Mészáros [op. cit.], 2002, p. 887 e ss.
[13] No início da década de 1990, gozou de uma certa popularidade a tese de que o combate ao economicismo implicaria no reconhecimento de que a exploração econômica seria imediatamente política e um dos autores então mais citados foi Michael Burawoy. A tese central de seu livro, The Politics of Production (Londres/Nova York, Verso, 1985), partia do pressuposto que buscar o fundamento social nas relações econômicas seria o mais grave problema do economicismo o qual, para ele, retirava a luta de classes da histórias ao fazer desta o desdobramento dos processos econômicos. Tratar-se-ia, portanto, de trazer os trabalhadores de volta à cena e isto apenas seria possível resgatando a luta de classes enquanto um conflito imediatamente político. Por político, segundo Burawoy, deveria ser entendido o conflito entre subjetividades; entre, para sermos breves, ideologias distintas. Esta concepção conduziria, por vezes, a formulações que postulavam ser a mais-valia uma categoria política e não econômica, como podemos encontrar em Antonio Negri. Ainda que Leite não cite o autor americano, suas teses se aproximam neste particular do campo teórico de Burawoy.
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LESSA, S. Trabalho e proletariado no capitalismo contemporâneo. 2ª ed. Sâo Paulo: Cortez, 2011, pp. 253-274.
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