Mostrando postagens com marcador #ARTE — poemas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador #ARTE — poemas. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Poemas sobre a classe operária: Hardware


Hardware
Paulo Ayres

Se houver as neves no topo
Se não derreteram no mundo real
Setenta por cento do valor
Se os fantasmas na minha cabeça
Não for um tumor cerebral
É só a minha burrice natural e a programada

Pratos quebrados
Sanduicheiras quebradas
Porta-retratos quebrados
Porta da geladeira removida
Valores de uso desvalorizados 

Produção pelas mãos operárias
Ação do tempo reverte
= = =

terça-feira, 25 de novembro de 2025

Poemas sobre a classe operária: Hospício Hospitaleiro


Hospício hospitaleiro
Paulo Ayres

A primeira internação é a dos operários
Tijolos sozinhos não fazem um hospital
Depois da tempestade, a calmaria
E a monotonia infernal

Loucura na rua da Belina verde
Muito tempo antes a lógica obreira
Depois da construção, a agonia
Petrifica o hospital

Rodear o pé de manga
Não faz o tempo passar mais rápido

= = =  

quarta-feira, 2 de julho de 2025

Poemas sobre a classe operária: Os Quitutes da Classe Artesã no Carro de Som

Os quitutes da classe artesã no carro de som
Paulo Ayres

O agro está em tudo
A política está em tudo 
O espírito santo está em tudo

Sigo a perigo 
Três semanas sem beber vinho
Uivando para Lua, subindo pelas paredes

Na zona urbana os animais são diferentes
Chamam a atenção para a degustação
Cada mordida é um vale-suor na troca

Pamonhas, churros e canudinhos
Pamonhas, churros e canudinhos
Os ingredientes vêm de tão longe
Os impacientes vêm de tão perto

= = = 

terça-feira, 17 de junho de 2025

Poemas sobre a classe operária: Uma Piada Internacional

Uma Piada Internacional
Paulo Ayres

Um Jesus que não veio de Belém
Milionário sem nenhum vintém
Do quintal ele não enxerga além
E Vitor Filipe é apenas um Ken

Em cada mês uma penitência
Humilhação ali é recorrência
Até em inglês pedem paciência
E Marina Ferri tem a fluência

Sonhando em viajar longe dali
Sarandi é a cidade do coração

Operário que não tem o amanhã 
Sem corpo são e nem mente sã
Travando sempre uma luta vã
Lá na Cracolândia é um Cauã

Acende maçarico com isqueiro
Rola o YouTube o dia inteiro
Humor de fofoca e banheiro
Neves no cume estrangeiro

Sonhando em viajar longe dali
Sarandi é a cidade do coração
= = =

sábado, 17 de maio de 2025

Poemas sobre a classe operária: O Operariado de Santana do Agreste

O operariado de Santana do Agreste
Paulo Ayres

É vermelha a luz de Tieta
São pretas as vestes da bruxa
Assombração branca é bem viva
Mas menos ativa que a da fazenda

A cama redonda é móvel rosa
Não é o que mais ali entrosa
Movimento da costura coletiva
Mas menos ativa que a da fazenda

Do lado de dentro do cercado
Um punhado de operários rurais
No cabresto de Coronel e Filó
Uma gaiola de favores sexuais

A fábrica de Mangue Seco
Ideia que secou na fonte
Turismo com tanta pressa
Tropeça na cidade fantasma

= = =
[0] Primeiro tratamento: 15/05/2019.
= = =  

quinta-feira, 8 de maio de 2025

Poemas sobre a classe operária: Anticapitalismo Romântico na Calçada das Americanas

Anticapitalismo romântico na calçada das Americanas
Paulo Ayres

Um colar com pedra mística que vibra com ascendência em Urano
Fulano me mostrou uma pulseira

Lá dentro, servidores com nota fiscal
Aqui fora, artesãos que a maioria não nota

Quem fez os produtos lá de dentro?
Quem fez as roupas, os talheres e o radinho tocando reggae aqui fora?
Será?
Será que foi a operária apressada?

Mercadorias que a deusa Mãe Galática não sabe fazer
Namastê, amiga anarquista

= = =
[0] Primeiro tratamento: 09/05/2018.
= = =

terça-feira, 6 de maio de 2025

Poemas sobre a classe operária: Trabalho Simples


Trabalho Simples
Paulo Ayres

Lá se vai o cara no carro de som
É somente um garoto de recados
Um galão de água pesa pra caramba
Menos que o corpo desidratado

Nos confins da cidade
A complexidade é muito simples

Lá se vai um ilustre desconhecido
É somente o futuro ex-porta
Uma pizza se fatia em mil pedaços
Depende de quem é que corta

Na fábrica da sociedade
A complexidade é muito simples
= = =

quinta-feira, 1 de maio de 2025

Poemas sobre a classe operária: Vagabundo e Mimado


 
Vagabundo e mimado
Paulo Ayres

No final de semana eu abracei uma árvore
Virei panteísta e pansexual
No mês passado eu pedirei demissão
Sou um vagabundo formal

Pegam carona na carroça
E chicoteiam o cavalo
Burro empacado pasta longe

Longe da zona industrial
Longe da zona de bacanal
Menino mimado é operário em desconstrução
= = =

segunda-feira, 28 de abril de 2025

Poemas sobre a classe operária: Esforço Repetitivo


Esforço repetitivo
Paulo Ayres

São tantos boletos
Um pouco de litrão
A soma dos catetos
Teorema de burrão

Gilete na parede
Aumento de volume
Sextou com sede
Segunda é o chorume

Tirou a lingerie
Sala meio escura
O movimento por ali
Máquina de costura

Conjunto feminino
Salário por peça
Quase um destino
O corpo tem pressa
= = =

segunda-feira, 14 de abril de 2025

Poemas sobre a classe operária: DVD Empoeirado

DVD empoeirado
Paulo Ayres

O ano é 2035
Agora são três e meia da tarde
Aprendi a fazer café sem ficar aguado
Palestina ainda é território ocupado
Mulher na Lua teve a primeira
E também bandeira com foice e martelo

A validade é junho
Agora são três e quarenta e seis
Comi esse queijo que não é australiano
Poluição ainda sai pelos canos
Brasileiro com Oscar teve o segundo
E também o mundo é um cenário dramático

Numa velha caixa encontrei DVDs
Empoeirados, antiquados, sem data
Pirata ou não, a mercadoria acorda
Como uma horda de ideações

Disney, iraniano, curta ou documentário
O operário é um artista dos bastidores
Cenários desmontados, discos reluzentes
Os leves riscos não apagam o trabalho
= = = 

terça-feira, 8 de abril de 2025

Poemas sobre a classe operária: Zero à Esquerda

 
 
Zero à esquerda 
Paulo Ayres

Imagine alguém gostar de um completo inútil
É algo tão fútil que não consigo imaginar
Está vivo organicamente
Morreu como ser social

Imagine um choque cardíaco com um sermão
É algo em vão, a vida está por um fio
Professor Brio está bem pago, alimentado e estudado
Ele pode brincar de estoicismo

Cada ovo da granja é um valor de uso
Três cartelas de operários rurais
Nove quebrados, zero à esquerda

Na agitação, os ovos estão mexidos
Faça isso pela Palestina e por Cuba!
Ainda que a conta feche a receita
As armas da crítica não podem substituir a Ana de Armas
= = =

segunda-feira, 7 de abril de 2025

Poemas sobre a classe operária: Culinária, Carro e Musculação

 
 
Culinária, Carro e Musculação
Paulo Ayres

Para ser demitido pela Faria Lima
Basta sair do lado de cima
Em pouco tempo se desfaz
Perder o gás
Deus mercado

Para ser marido da Fernanda Lima
É preciso mais que clima
Leva tempo ser eficaz
Trocar o gás
Chuveiro queimado

Culinária, carro e musculação
Cadê a injeção de ânimo?
A injeção material é literal

Colheita de tomate
Montadora de Celta
Correr antes da esteira
Até saber ferver o leite vem depois disso.
= = =

quarta-feira, 12 de março de 2025

Poemas sobre a classe operária: Contagem de Horas


Contagem de Horas
Paulo Ayres

Nunca se um viu um enxame tão grande
Vão por todos os lados
Ferrão e mel
Mas é proibido contar

Horas, horas, horas, horas, horas e horas
Mas é proibido contar
Algo sempre escorre todo dia
Mas é proibido contar

Lições de moral
Essas se contam nos dedos
de uma palma da mão

Zero, quanto zeros à direita, girando, girando
Empregados apicultores e abelhudos
Alguns heróis usam capa, outros não
Horas, horas, horas, horas, horas e horas
Mas é proibido contar

Uma hora tudo se esvazia, fica abandonado
É a matemática básica
Escorre mais-valor
= = =

terça-feira, 4 de março de 2025

Poemas sobre a classe operária: Operário de Ponta Grossa

Operário de Ponta Grossa
Paulo Ayres

A partida nem começou de fato
No campeonato paranaense
a temporada se alonga

Um time com um nome tão belo
Sem o troféu amarelo de afeto,
um fantasma alvinegro

Entre as bolas, em cada costura
Linha de montagem em cada postura
É um jogo aberto, uma estrutura
Dura até os acréscimos

De Matinhos até Campo Largo
É amargo o veneno de Cascavel
E o céu em Curitiba

Em Palmas o jogo sempre esfria
Tem dia que a obra parece sólida
O impedimento vem da tela
= = =

domingo, 2 de março de 2025

Poemas sobre a classe operária: Blocos Concretos e Festivos


 
Blocos Concretos e Festivos
Paulo Ayres

Por trás de cada fantasia
Preenchendo cada fotografia
Vestuário do trabalho primário

Cada estatueta foi moldada
Adereço festivo não vem do nada
Paisagens da geografia humana

Entre vestidos de gala
E entre salas secretas
Entretenimento feito pela mão,
Entretanto, mãos operárias
Entrelaçadas com a beleza
evitam o entristecimento

Ainda estou aqui
Vendo o palco da Sapucaí
E pinguins em Los Angeles

Ainda espero a subida
E se a arte imita a vida
Nesse calor do cão,
a premiação é uma incógnita

Em cada bloco há beleza
Mas a estrela acesa está no bastidor
Mesmo com o ultraje a rigor,
Pacola escreve história
= = =

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

Poemas sobre a classe operária: Um Morto no Trabalho Material Produtivo



Um Morto no Trabalho Material Produtivo
Paulo Ayres

A noite é uma criança
A madrugada, um velho cansado
Deixando de lado o mistério
É um caso sério a solidão

Operário no banheiro
É o primeiro cadáver sem cheiro
Trabalho morto de um homem torto
A máquina continua a produção

Ele está preso numa tela
Valor da vela de sétimo dia
Na monotonia da hora extra
Ninguém estende a mão

Tanta vida do outro lado
Risos distantes, gozando
Quando acorda pela tarde
O velho arde em recordação

E o vampiro à luz do dia
Nem se via na cadeira de rodas
Mas a roda viva é um vai-e-vem
Bancário na circulação
= = =

terça-feira, 16 de julho de 2024

Poemas sobre a classe operária: Depósito de Matéria-Prima e Moagem

Depósito de Matéria-prima e Moagem
Paulo Ayres

Na floresta artificial no interior da fábrica
os frutos de plástico são encaixotados
e os galhos são as sobras

É um material excedente do trabalho excedente
na jornada excedente da labuta
há mercadorias excedentes

São galhos empilhados e armazenados lá no fundo
no fundo, quase nada se perde
quase tudo se transforma

Operários moídos geram produtos e fumaça
são mais sacos de partículas
sólidas, líquidas e gasosas
= = =

sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

Poemas sobre a classe operária: Ventilador Quebrado

Ventilador Quebrado
Paulo Ayres

Um calor do cão num lugar fechado
não tem ventilador que dê jeito
o meu respeito por mim mesmo escapa através do suor

De melancólico para desesperado
quando destrói um valor de uso
num abuso de ego ferido idealizando algo melhor

O objeto não gira mais
nem o do meu quarto
nem o da minha máquina
é um complô estendido para a fábrica

Enquanto jogo a torneira quente na água
vem um pouquinho de vento da máquina adiante
numa solidariedade involuntária
= = =

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

Poemas sobre a classe operária: O Trabalho Vivo no Dia de Finados

O trabalho vivo no Dia de Finados
Paulo Ayres

Antes do caminhão de melancia
antes do sorvete com sabor de vela derretida
a atividade fundante é um sopro de vida

Antes de morrer é preciso fazer um túmulo
antes de correr em direção ao esquecimento
é preciso parar um momento

Alguém não para nem no dia dos mortos
algo sempre morre na fábrica
a operária sobrevive
= = =


quarta-feira, 29 de março de 2023

Poemas sobre a classe operária: Café com Borracha


Café com borracha
Paulo Ayres

Há um gosto do polímero em cada café
Na partilha entre os operários
Em cada bolacha
Em cada borracha destacada.

Há também um gosto de solidariedade
Explorados que partilham o pão
Quanto mais consciência melhor o sabor
Uma fábrica assim é um inferno com pequenos paraísos.

= = =