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segunda-feira, 14 de junho de 2021

quinta-feira, 22 de abril de 2021

Poemas sobre a classe operária: Exploração, Palavra Maldita


Exploração, palavra maldita
Paulo Ayres

Lemos várias coisas no jornal liberal
Inflação, futebol, congresso e dengue
Sempre alguém reclama de corrupção
E ninguém fala da raiz do perrengue

Todo burguês gosta de jogar conversa fora
Mas experimenta tocar na ferida, faz favor
Se xingado de mil nomes ele não se apavora,
Experimenta chamá-lo de agente explorador

Exploração: seja escrava, servil ou assalariada
Podemos esquecê-la e ficar falando dos efeitos
Porém sempre que nos sufocar essa vida errada,
Pensaremos se é possível viver de outro jeito

Palavrinha ausente na mídia e no senso comum
No fundo, todo mundo sente e percebe o que é
Quando o operário entende o motivo do jejum
Esse termo entra no vocabulário durante o café
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segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Economia Política Para Trabalhadores: resenha do livro de Sofia Manzano


por Edmilson Costa

As últimas três décadas foram marcadas pela hegemonia do pensamento único em todas as esferas da vida social, especialmente na área da economia. Retornou-se nesse período a um estatuto teórico do século XVIII fantasiado de modernidade, como o mercado regulador das atividades econômicas, sociais e políticas da humanidade, a retirada do Estado da economia, a desregulamentação financeira e das leis de proteção social, as privatizações do patrimônio público e o estímulo permanente a um individualismo doentio na sociedade.

Esses mitos neoliberais, estimulados diariamente pelos meios de comunicações a serviço do capital, fincaram raízes profundas em vastos setores da população, inclusive entre os trabalhadores. A televisão, o rádio e os jornais transformaram-se em porta-vozes dos segmentos mais reacionários do capital, enquanto os pós-modernos passaram a hegemonizar vários setores da universidade. Especialmente nos cursos de economia, os currículos foram alternados para se adaptar à nova ordem. Formaram-se assim duas gerações sem oportunidades de conviver com outras teorias econômicas, pois qualquer tentativa de questionar o pensamento único era imediatamente desqualificada e retirada de cena.

No entanto, como sempre acontece historicamente, a realidade da vida termina se impondo na conjuntura. E foi exatamente isso que ocorreu com a crise sistêmica que emergiu em 2008. Quando menos o grande capital esperava, a crise roubou-lhe os fundamentos e, como num passe de mágica, todos os mitos construídos nestas três décadas neoliberais foram se desmoralizando como um castelo de cartas. Em desespero, o capital financeiro foi obrigado a pedir socorro ao Estado que tanto procurou espezinhá-lo por mais de 30 anos. O mito do mercado como regulador das atividades econômicas e sociais esfacelou-se, a eficiência da iniciativa privada, que justificava as privatizações, também evaporou-se. A crise deixou o rei inteiramente nu!

Nesse contexto em que o velho ainda não morreu e o novo ainda não teve condições de se impor é que tem grande importância o lançamento do livro Economia política para trabalhadores, da professora Sofia Manzano. Trata-se de um trabalho introdutório sobre a economia política, mas bem justificado teoricamente. O livro utiliza de vastas passagens dos clássicos num diálogo que procura aproximar os principais pensadores das ciências sociais com todos aqueles que estão se iniciando na leitura da economia. Além disso, as longas citações dos clássicos evitam as construções manualísticas tão comum em trabalhos desse tipo.

Com esta publicação, o Instituto Caio Prado Jr. (ICP) não apenas dá continuidade à publicação dos [seus] Cadernos (este é o de número 2), como também contribui de maneira efetiva para a construção contra-hegemônica num campo em que há poucas publicações progressista, como é o caso da economia. Com este trabalho, os leitores também têm oportunidade de conhecer os intrincados caminhos tanto da construção histórica do capitalismo como das principais variáveis da política econômica praticada na atualidade.

O livro está dividido em cinco capítulos, todos integrados, que possibilitam uma compreensão do estado da arte da economia contemporânea. O primeiro capítulo faz um relato histórico sobre o desenvolvimento do processo de produção, desde as sociedades primitivas, envolvendo uma abordagem sobre a divisão social do trabalho, o processo de troca e a formação do excedente, a questão do valor, da moeda, bem como o processo em que o dinheiro se transforma em capital para gerar a acumulação do capital.

O capítulo dois traça uma trajetória do desenvolvimento capitalista, desde o processo de transição do feudalismo, passando pela acumulação primitiva, o papel dos regimes absolutistas, a centralização do Estado na figura do rei, a unificação jurídica, tributária e monetária e a relação dessa nova conjuntura com os interesses da burguesia nascente. Um aspecto interessante é o fato de que, ao contrário do que dizem os escribas do capitalismo, que procuram embelezar a história e desenvolvimento desse modo de produção, o livro relata, baseado nos clássicos, as barbaridades, a pilhagem e a violência realizadas contra os camponeses e trabalhadores em geral para a consolidação da burguesia. Pode-se constatar também que o processo de assalariamento foi realizado a ferro e fogo, com a burguesia obrigando os trabalhadores a trabalhar sob pena do açoite. Desprovidos dos meios de produção, expulsos de suas terras e passando a vagar pelas cidades, os trabalhadores não tinham outra opção a não ser vender sua força de trabalho para ganhar a sobrevivência, numa jornada de trabalho que não raro se estendia por mais de 16/17 horas, com os trabalhadores tendo que comer ao pé da máquina. Não é nada idílica a história do capitalismo.

O capítulo três vai analisar o capitalismo contemporâneo, não sem antes explicar a transição do capitalismo concorrencial para o capitalismo monopolista. O livro analisa a importância das descobertas tecnológicas como fator importante para a formação das grandes empresas, bem como o processo de concentração e centralização do capital e a formação da sociedade por ações, fator fundamental para aglutinar capitais e dar um salto de qualidade no desenvolvimento do capitalismo.

Essa nova fase do capitalismo, que os clássicos denominaram de imperialismo, é objeto de cuidadosa análise, onde se demonstra que a formação dos monopólios é um processo natural do capitalismo, em função da concentração e centralização do capital. O livro analisa, ainda, os elementos constitutivos que levam às crises no capitalismo, ressaltando que, quando mais esse modo de produção se desenvolve, mais entra em contradição com as bases estreitas do consumo, o que faz a crise ser uma companheira inseparável deste modo de produção.

A autora avalia ainda que o capitalismo, em função da concorrência acirrada entre os monopólios, tende a levar a uma queda da taxa de lucro, em função da composição orgânica do capital, que é a relação existente entre o capital constante e o capital variável: “A queda da taxa de lucro é, portanto, resultado, em última instância, da tendência à substituição do “trabalho vivo” (trabalhadores) pelo trabalho morto (máquinas, equipamentos), fazendo reduzir a fonte de mais-valia, o que acaba por originar uma super-acumulação de capital e de mercadorias, ao mesmo tempo em que promove uma restrição na capacidade de consumo da sociedade, por causa do desemprego que desencadeia”.

O livro trata ainda da questão do capitalismo do pós-guerra, período em que a burguesia sai enfraquecida dos conflitos e os trabalhadores emergem com grande força, pelo fato de que foram os principais baluartes da luta contra o nazifascismo. Essa conjuntura, aliada ao fato de que a União Soviética também saiu da Segunda Guerra com enorme prestígio, em função de ter sido a principal força para a derrota do nazismo, vai explicar porque os trabalhadores tiveram condições de impor ao capital uma série de direitos e garantias, constituindo-se aquilo que ficou conhecido como Estado do Bem Estar Social.

Ainda neste capítulo o livro aborda um conjunto de crises mais recentes do capitalismo, desde a crise na Bolsa de Valores em 1987, passando pela crise asiática, crise da Rússia, Brasil, Argentina até desembocar na crise sistêmica global, que já dura cerca de seis anos: “A crise econômica atual se alastrou rapidamente por todo o sistema capitalista e todos os países do mundo, pois como o capitalismo está globalizado, seja no comércio de bens e serviços, nas cadeias produtivas, no caráter mundial das grandes empresas ou na movimentação financeira, a crise atinge simultaneamente o centro do sistema, ou seja, Estados Unidos Europa e Japão, assim como os demais países como China Rússia, Índia e Brasil”.

Como em todas as crises, o capital procura jogar todo o ônus na conta dos trabalhadores, fazendo uma espécie de socialização dos prejuízos e colocando o Estado mais abertamente a serviço do capital para sair da crise: “Nesse quadro, aprofunda-se a ofensiva contra os salários, direitos e garantias dos trabalhadores, assim como ganham maior expressão posturas direitistas e fascistizantes em favor de modelos autoritários de exercício de poder”, o que já vem acontecendo em vários países da Europa.

Nos capítulos quatro e cinco a autora trata do funcionamento do sistema econômico, dos mercados capitalistas, bem como da política econômica desenvolvida nos vários países atualmente. Elaborado de forma didática, esses dois capítulos abordam o mercado da terra, o mercado de trabalho, o mercado de capitais, o sistema financeiro, bem como um conjunto de variáveis macroeconômicas como o Produto Interno Bruto, o balanço de pagamentos e as políticas econômicas práticas desenvolvidas no capitalismo atual.

Dessa forma, Economia política para trabalhadores cumpre um papel fundamental não apenas por se contrapor ao pensamento único que vigorou nos últimos 30 anos, mas especialmente se constitui numa ferramenta importante para a formação dos trabalhadores e dos estudantes num terreno (a economia) dominado pelos neoclássicos e escribas do capital, tanto nas escolas e universidades quando nos meios de comunicação. Esperamos que os movimentos sociais (não fragmentários) e os sindicatos em geral se apropriem das informações contidas neste livro para melhor desenvolverem as suas lutas cotidianas.

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[0] Edmilson Costa é Secretário-Geral do PCB e Doutor em Economia pela Unicamp-SP. Artigo publicado em 2013, quando da primeira publicação da obra, agora reeditada.
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sexta-feira, 5 de julho de 2019

Na Índia, operárias rurais têm útero retirado para maior produtividade


 
por Geeta Pandey

'Aldeias das mulheres sem ventre': as milhares de indianas que removem o útero por causa de emprego

Milhares de jovens mulheres em Maharashtra, Estado ocidental da Índia, estão fazendo cirurgias para retirar os úteros. A maioria delas adotou essa solução radical para conseguirem empregos em plantações de cana de açúcar ou porque foram induzidas por médicos inescrupulosos.

Todo ano, dezenas de milhares de famílias carentes migram para uma região conhecida como "cinturão do açúcar" para trabalhar por seis meses na colheita da cana.

Muitas famílias acabam nas mãos de empregadores gananciosos que as exploram.

Eles resistem a contratar mulheres porque o trabalho nas plantações é pesado e, segundo eles, mulheres podem perder um ou dois dias de trabalho por causa da menstruação. Quem falta ao trabalho precisa pagar multa.

As condições de vida no local de trabalho estão longe do ideal e são particularmente complicadas para as mulheres durante a menstruação.

As famílias têm que viver em cabanas ou barracas perto das plantações, onde não há banheiros. Como a colheita às vezes é feita mesmo à noite, não há horas fixas nem para trabalhar nem para dormir.

Por causa das más condições de higiene, muitas mulheres contraem infecções. Segundo ativistas que trabalham na região, médicos inescrupulosos as incentivam a passar por cirurgias desnecessárias, mesmo quando apresentam um pequeno problema ginecológico que poderia ser tratado com remédios.

Aldeias de mulheres sem ventre

Como a maioria das mulheres nessas áreas é casada e jovem, muitas têm de duas a três crianças antes mesmo de completar 30 anos. Como os médicos não falam abertamente sobre problemas e dificuldades da histerectomia, muitas mulheres acreditam não haver problema em se livrar de seus úteros.

Isso transformou várias aldeias da região em "aldeias de mulheres sem ventre", segundo a imprensa indiana.

Depois que o problema foi levantado, no mês passado, pelo deputado estadual indiano Neelam Gorhe, o secretário de saúde de Maharashtra, Eknath Shinde, admitiu que 4.605 histerectomia foram realizadas em apenas um distrito - Beed - nos últimos três anos.

Mas, segundo ele, nem todos os procedimentos foram feitos por mulheres que trabalham na colheita da cana.

Shinde disse que uma comissão foi criada para investigar vários casos.

Prajakta Dhulap, que trabalha em um dos serviços da BBC na Índia, visitou um vilarejo de Beed e diz que de outubro de 2018 a março de 2019, 80% dos moradores do local migraram para trabalhar em plantações de cana. Metade das mulheres da vila fez cirurgia para tirar o útero e a maioria tem menos de 40 anos - algumas ainda estão na casa dos 20 anos.

Muitas das mulheres com quem Dhulap conversou disseram que a saúde deteriorou desde que foram submetidas à operação.

Uma mulher relatou uma "dor persistente nas costas, pescoço e joelhos" e disse acordar com mãos, rosto e pés inchados. Outra reclamou de tontura constante e como ela tinha dificuldades de caminhar até mesmo distâncias curtas.

Ambas disseram que não estão conseguindo trabalhar nas lavouras por causa dos problemas de saúde que apareceram depois da cirurgia.

Remédios ilegais contra menstruação

A imprensa também reportou que a situação no estado Tamil Nadu, no sul do país, é igualmente terrível.

Mulheres que trabalham na bilionária indústria de vestuário alegam ter recebido medicamentos não rotulados no trabalho - em vez de um dia de folga - quando se queixaram de dores e cólicas menstruais.

A fundação Thomson Reuters entrevistou aproximadamente 100 mulheres e revelou que esses medicamentos raramente eram fornecidos por profissionais da área médica e apontou que costureiras, em sua maioria de famílias carentes, diziam que não podiam se dar ao luxo de perder o salário de um dia por causa de dores menstruais.

Todas as entrevistadas disseram que tinham recebido remédios e mais da metade delas afirmou estar, como resultado, enfrentando problemas de saúde.

Muitas delas também disseram que não lhes foi dito o nome do remédio e tampouco foi falado sobre possíveis efeitos colaterais.

Algumas atribuíram aos medicamentos problemas como depressão, ansiedade, infecção urinária, miomas e abortos espontâneos.

Reportagens sobre o que mulheres menstruadas são submetidas nos dois Estados da Índia fez com que autoridades tomassem providências.

A Comissão Nacional para Mulheres descreve a situação das mulheres em Maharashtra como "patética e miserável" e pediu ao governo estadual para prevenir "atrocidades" como essa no futuro.

Em Tamil Nadu, o governo afirmou que iria monitorar a situação das trabalhadoras da indústria têxtil.

Disparidade salarial

As notícias chegam em um momento em que estão sendo feitas tentativas em todo o mundo para aumentar a participação das mulheres no mercado de trabalho e reduzir a diferença salarial, implementando políticas de gênero.

Mas, na Índia, a participação da força de trabalho feminina caiu de 36% em 2005-2006 para 25,8% em 2015-2016 e não é difícil entender por que, se olharmos para as condições em que as mulheres têm que trabalhar.

Na Indonésia, Japão, Coreia do Sul e em alguns outros países, as mulheres podem tirar um dia de folga durante o período menstrual. Muitas empresas também oferecem essa possibilidade.

"Também na Índia, o governo do Estado de Bihar vem permitindo que as funcionárias tirem dois dias extras de folga todos os meses desde 1992 e parece estar funcionando muito bem", diz Urvashi Prasad, especialista em políticas públicas do governo indiano.

E, no ano passado, uma deputada apresentou um projeto de lei no Parlamento a fim de assegurar dois dias de folga por mês a todas as trabalhadoras do país.

Urvashi Prasad diz que são muitos os desafios para implementar qualquer tipo de política pública num país tão grande e diverso como a Índia, especialmente no setor informal que exige uma fiscalização muito maior.

Mas, segundo ela, se as mudanças começarem no setor formal, pode ajudar a mudar o comportamento e remover o estigma em torno da menstruação na Índia.

"Então, o que precisamos é que o poderoso setor privado organizado e o governo se posicionem, precisamos que as pessoas no topo enviem os sinais certos", diz ela. "Nós temos que começar em algum lugar e, eventualmente, podemos esperar ver alguma mudança no setor informal também."
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quinta-feira, 18 de abril de 2019

Poemas sobre a classe operária: Ofensiva Feroz


Ofensiva feroz
Paulo Ayres

Ofensiva feroz do capital
faço bem, colho mal.

Mal coloco o pé na faixa e o mercado acelera
já era
morro nos desmontes.

Mal lembro quem sou e a fábrica me desmonta
quimera
morro acelerado.

Além de morrer em vida
minha ferida não cicatrizará
não me aposentarei.
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sexta-feira, 5 de abril de 2019

terça-feira, 19 de março de 2019

terça-feira, 12 de junho de 2018

Poemas sobre a classe operária: A Unidade Dialética Entre o Explorado e o Explorador


A unidade dialética entre o explorado e o explorador
Paulo Ayres

Me responda uma pergunta, por favor
como desata esse nó cego entre escravo e senhor?

É tanta máquina viva
é tanta saliva e pouca refeição
é tanta fábrica sem chão
é tanto chão de fábrica com dor

Me responda, por favor
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sábado, 26 de maio de 2018

A carroceria sobre as costas (perfil social dos caminhoneiros)


por Golbery Lessa
PCB

De acordo com o Departamento Nacional de Trânsito (DENATRAN), há 2,7 milhões de caminhões no Brasil . Os caminhoneiros autônomos são proprietários de cerca de 70% desses veículos e os 30% restantes [estou checando melhor esse cálculo, mas, apesar das dúvidas sobre os números exatos, a enorme presença dos autônomos na categoria é um fato conhecido] estão no patrimônio das empresas de logística e das firmas de outros setores. Nas transportadoras trabalham 360 mil motoristas de carga (fonte: Caged) e os autônomos são 1,8 milhão de indivíduos (diminuindo o número total da frota pelo número de assalariados do setor). Portanto, a maioria dos caminhoneiros não é composta de assalariados. Esse fato aproxima em alguma medida as reivindicações dos autônomos das reivindicações das empresas do setor, contudo isso não significa que exista uma identidade fundamental de interesses entre os dois polos e menos ainda que os caminhoneiros sejam sempre manipulados pelos empresários, apesar de ambos agirem em alianças pontuais por diversas razões.

Em 2016, segundo uma pesquisa sobre as condições de trabalho dos caminhoneiros contratada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), cada caminhão no país tinha em média 13,9 anos de uso: os veículos dos autônomos tinham 16,9 anos e aqueles das transportadoras apenas 7,5 anos. Os primeiros são obrigados a usar seus veículos para além do tempo máximo recomendável e isso implica piores condições de trabalho e menor produtividade. Entre os autônomos, 62% pagaram empréstimos durante 5 anos para comprarem seu principal meio de trabalho. A renda líquida média desses trabalhadores era de 4.100 mil reais, a jornada de trabalho era de 11 horas, no estilo da Revolução Industrial na Inglaterra, e eles possuíam em média 3 dependentes. A média de idade era de 45,7 anos, apenas 32,6% tinham completado o ensino médio e só 1,2% havia concluído o curso superior. Geograficamente, a frota estava concentrada nos estados de Minas, SP, Paraná e Rio Grande do Sul.

Os motoristas de carga assalariados tinham, em 2014, segundo o Caged, uma renda média de 1.800 reais, mas aqueles contratados pelas transportadoras e não por firmas de outros setores possuíam, em 2016, renda média (3.800 reais) e condições de trabalho parecidas com aquelas dos autônomos, o que se explica pelas especificidades das jornadas nas empresas especializadas em transporte. Entretanto, a proximidade do tipo de jornada e do nível de renda dos autônomos e assalariados não elimina as profundas diferenças objetivas entre os dois regimes laborais e as especificidades das psicologias derivadas deles. Os primeiros não possuem uma renda fixa e segura, como possuem os assalariados, precisam fazer um cálculo econômico análogo ao de uma pequena empresa, focado no preço dos insumos, no amortecimento rápido do capital, nas taxas de juros, nos pedágios e nos impostos. Os segundos, possuem uma psicologia operária, focada na manutenção do poder de compra do salário, na solidariedade com os outros trabalhadores da mesma empresa e na conquista das melhores condições laborais possíveis.

O caminhoneiro autônomo é um empresário sui generis, pois não manda em ninguém, é patrão e capataz de si mesmo em benefício de bancos e distribuidoras de combustível. Vive sob excessiva e estressante carga de trabalho diária sem a alegria do convívio familiar, situação que lhe acarreta doenças laborais e falta de tempo para se instruir e fazer exercícios físicos. Ele tem consciência dos preconceitos a partir dos quais sua forma de vida é vista pelas outras pessoas, o que provoca impacto negativo na sua autoestima. Na citada pesquisa da CNI, os caminhoneiros afirmaram saber que são percebidos a partir das seguintes características: irresponsabilidade, imprudência no trânsito, uso de drogas e baixa escolaridade. O preço do diesel é decisivo para o seu equilíbrio financeiro, sendo o foco de suas reivindicações econômicas. A remuneração do frete também é essencial, mas não oscila tanto quanto o preço do combustível e depende menos do estado. Isso explica porque esses caminhoneiros se insurgem principalmente contra os aumentos do preço do diesel e miram no governo e no Congresso Nacional, mesmo não denunciando o problema da baixa remuneração dos fretes.

O fenômeno da terceirização de parte do processo produtivo das empresa e a metodologia do “estoque zero” ampliaram o papel estratégico do transporte rodoviário, aumentado o peso dos trabalhadores do setor de transporte terrestre de cargas no funcionamento da economia. Mas a dispersão objetiva das relações econômicas nas quais estão inseridos os autônomos os transforma em quase dois milhões de "empreendedores" convivendo lado a lado, mas com dificuldade de se unificarem em um coletivo coeso por lhes faltarem a alavanca unificadora da oposição a um mesmo setor patronal. Isso parece explicar a maior parte de suas dificuldades de efetivação de ações coletivas exitosas e de desenvolverem lideranças unificadoras. Essas dificuldades de coesão parecem estar sendo minimizadas pelos meios de comunicação digitais portáteis, como o celular com grupos de WhatsApp e de e-mail, mas sua persistência é estrutural e está na base da influência das empresas transportadoras em suas mobilizações, pois estas acabam funcionando como um Bonaparte influenciando as ações e a consciência de uma categoria estruturalmente fragmentada, um problema que poderia ser minimizado com uma maior aproximação entre os autônomos e os caminhoneiros assalariados, os quais têm potencialidade sociológica de funcionarem como vanguarda sindical e política da categoria como um todo.

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Fontes:
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segunda-feira, 21 de maio de 2018

Poemas sobre a classe operária: Alface em Libras


Alface em libras
Paulo Ayres

Sei que há algo de muito errado nisso tudo
sei que tudo tem algo de muito meu
mas não é meu

Quero continuar pagando minhas contas
finjo, então, que nada é da minha conta
não vejo, não ouço, não falo

Produzo, reproduzo e me calo
não levanto minha voz
não desato os meus nós

Pneus em dólares e alface em libras
minhas mãos se movimentam

Os surdos ouvem no último volume:
folhas de alface e palmas da mão
exploração em unidade

As minhas mãos abanando
mãos de operário
salário e sal
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