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quinta-feira, 2 de novembro de 2023

Poemas sobre a classe operária: O Trabalho Vivo no Dia de Finados

O trabalho vivo no Dia de Finados
Paulo Ayres

Antes do caminhão de melancia
antes do sorvete com sabor de vela derretida
a atividade fundante é um sopro de vida

Antes de morrer é preciso fazer um túmulo
antes de correr em direção ao esquecimento
é preciso parar um momento

Alguém não para nem no dia dos mortos
algo sempre morre na fábrica
a operária sobrevive
= = =


sábado, 7 de maio de 2022

Poemas sobre a classe operária: Inferno 21-67


 
Inferno 21-67
Paulo Ayres

O movimento que se repete
Vinte e um meia sete
Quatro conexões torcem duas mãos
Pele rebarbada por estranhos estiletes

O pensamento que não reflete
Vinte e um meia sete
Ciclo infernal de peças produzidas
Pernas doloridas sustentam a solidão

Desespero repetitivo e ritmado não se nota
Conexões quentes em água parada
= = =

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Sobre a classe servidora

 
por Paulo Ayres

De todas as classes sociais, a classe assalariada de serviços é o principal pivô que tem despertado pesquisas propondo revisões com “ampliação” e “imbricação” no conceito de classes sociais. Não é para menos que essa classe chame tanto a atenção de sociólogos e economistas: a tão falada “expansão do setor terciário” é um fato empiricamente constatável como fenômeno intensificado na fase monopolista do capital (especialmente desde a etapa dos “anos dourados” do imperialismo no pós-Guerra).

O olhar superficial se espanta com a quantidade, ou melhor, retira daí imediatamente (no sentido preciso de ausente de mediação) a constatação dialética da transformação da quantidade em qualidade (o salto ontológico), de uma maneira que altera os fundamentos universais das atividades humanas e os fundamentos histórico-econômicos do modo de produção capitalista. As fronteiras ontológicas entre trabalho (work[1]) e reprodução, ou mais especificamente entre a esfera de produção e a esfera de circulação, são borradas para encaixar um modelo sociologicamente maniqueísta à força – por mais que neguem isso, as propostas de “imbricação” dessas categorias científicas guardam, em última instância, um componente emocional de pena (da garota que é caixa de supermercado, por exemplo) ou de soberba (servidores públicos que colocam um sinal de igualdade entre si e operários, por exemplo); uma dissolução político-passional que é mais comum de se encontrar em determinadas correntes anarquistas e certos social-liberais românticos. Como Gustavo Machado (2017) corretamente diz:

[...] de nada adianta criarmos um conceito mais abrangente se este não encontra respaldo na realidade ou, então, se este suprime diferenças e determinações que, independente de nossa vontade, continuam a atuar. Não fosse assim, Marx seria, certamente, adepto de Bakunin. Este último se opunha, até mesmo, a ênfase dada por Marx aos trabalhadores assalariados, expandindo seu conceito para todos indivíduos e povos de algum modo oprimidos, fossem eles assalariados, camponeses, pequeno burgueses, presidiários e assim sucessivamente. Não se trata de excluir ou incluir nenhum setor da classe trabalhadora em um programa de transformação social, mas de compreender o seu papel objetivo no interior da sociedade, para, então, vislumbrarmos com clareza as vias possíveis de sua destruição.

Há ainda outra questão importante observada por Machado que vai de encontro com certo senso comum sobre a teoria marxiana das classes sociais: Marx já assinala, nos Grundrisse e em Teorias da mais valia, a tendência do capital de expandir o número de trabalhadores (labourers) prestadores de serviços fora da esfera de produção, devido primeiramente ao próprio aumento da produtividade do trabalho (work). Por isso, como diz o autor brasileiro, “o aumento do setor de serviços apenas eleva o peso do setor que produz a riqueza por eles consumida” e “longe de negar os prognósticos de Marx, o crescimento do setor de serviços apenas os reforça e confirma”. O aumento do setor de serviços está na razão direta do aumento da produtividade do trabalho (work) e, assim sendo,

outra causa de ser grande o número dos sustentados por renda é a circunstância de ser grande a produtividade dos trabalhadores produtivos, isto é, seu produto excedente que os serviços consomem. Neste caso, em vez de o trabalho dos trabalhadores produtivos não ser produtivo por haver tantos serviçais, há tantos serviçais, por ser ele tão produtivo (MARX apud MACHADO, 2017).

Apesar das considerações distintivas das atividades econômicas feita por Machado estarem corretas, ele usa equivocadamente o termo mercadoria apenas para bens tangíveis. Um serviço vendido, enquanto força de trabalho (labour power), todavia, também é um tipo de mercadoria, embora não desempenhe o mesmo estatuto ontológico e a mesma função da atividade que se cristaliza em um produto (ou seja, o work) e do produto em si, a mercadoria no sentido de coisa (Ding) tangível. Em outro ponto problemático, o autor trotskista diz, sem citar exemplos, que há lukacsianos que tomam o trabalho produtivo (productive labour) como uma categoria apenas referente ao proletariado e, além disso, o texto nega a centralidade fundante do trabalho (work) ao dizer que o fundamento das sociedades são seus “traços específicos”. Ora, desde quando a particularidade (escravidão, servidão e produção assalariada) nega a universalidade da prioridade ontológica da esfera de produção? Mais um caso de binarismo metafísico.

Essa imensa classe, que existe desde a Antiguidade, é o servidorismo ou serviçariado[2] – esse último termo é proposto também pelo marxista heterodoxo Nildo Viana, com base na menção de Marx à classe dos assalariados serviçais feita em O capital. Neste caso em particular, não se trata de um daqueles neologismos da miséria sociológica reconfigurando o sentido marxista de classes sociais ao gosto liberal da quantia de renda, mas apenas um nome para melhor sintetizar o termo “trabalhadores assalariados não operários”:

Entenda-se por serviçariado (ou subalternidade) a classe subalterna, ou seja, aqueles que Marx denominou de “classe dos serviçais”. O termo em Marx é mais restrito, já que ele cita mordomos e outros trabalhadores domésticos. Consideramos que estes são apenas uma fração da classe subalterna e que esta engloba outras frações e incluem funcionários subalternos do aparato estatal e instituições (estatais ou privadas), como trabalhadores de limpeza e todos que exercem os chamados “serviços” (como bancários, comerciários), entre outros. Os subalternos (ou “serviçais”) são aqueles trabalhadores assalariados improdutivos que não exercem controle sobre os demais, mas, ao contrário, são controlados por outros (capitalistas, burocratas, empregadores) (VIANA, 2016, p. 73-74).

A definição de Viana é adequada em linhas gerais, mas imprecisa em certos detalhes, ou exatamente em dois pontos. Primeiramente, o fato de o protomarxista excluir posições assalariadas de alto comando desta classe para, seguindo esse raciocínio, fundamentar uma camada de burocratas como uma classe social à parte, absorvendo um conceito sociológico de “burocracia”[3] e chegando ao cúmulo politicista de enxergar dirigentes políticos como uma classe social própria. Além disso, na passagem dos Grundrisse citada anteriormente, Marx (apud Machado, 2017) indica a unidade dentro da vasta dimensão desta classe de assalariados, ao dizer que estes trabalhadores (labourers), indo “do mais humilde ao mais elevado”, por meio de seus serviços prestados, “conseguem para si uma parte do produto excedente, da renda do capitalista” (MARX, 2011b, p. 385), isto é, em última escala, conseguem uma parte da riqueza produzida pelos produtores (workers).

O segundo ponto problemático da definição de Viana: ele diz que os servidores são trabalhadores improdutivos (unproductive labourers) e, embora grande parte seja mesmo, nem todos são. Esta, aliás, é uma das distinções essenciais dentro dessa classe. Trabalho produtivo (productive labour) e trabalho improdutivo (unproductive labour), como subcategorias do trabalho abstrato (labour), dizem respeito à produção de mais-valia para um determinado negócio, para um capital individual (Einzelkapital). E se a categoria fundante (work) feita pela classe operária é necessariamente um trabalho produtivo (productive labour), as atividades secundárias feitas pela classe servidora só desempenham esta função em determinados casos.

Os servidores improdutivos representam custos necessários para o capital (incluindo o seu comitê de sustentação, o Estado Burguês) manter a sua reprodução. A questão da necessidade é justamente um ponto em que se apoiam os sociólogos e economistas que querem cancelar as distinções marxianas manual-intelectual e/ou produtivo-improdutivo. Fazem tabula rasa com a necessidade, pois enxergam aí a produtividade (no sentido ontológico-social e/ou particular-capitalista). Ora, para haver a produção no mundo burguês, todos (ou quase todos) os trabalhadores (labourers) são, em algum grau, necessários, inclusive (ou até principalmente), a classe não trabalhadora (labourer), a classe burguesa que organiza; porém, uma coisa é ser necessário à existência da produção capitalista, outra diferente é a atividade que produz, o ser que produz. Como Lessa (2011, p. 108) enfatiza, desde Aristóteles está claro que se um ente é necessário a outro ente, logo são entes (categorias, processos, complexos etc.) distintos.

Enfim, o servidorismo improdutivo é uma enorme e diversificada camada (Schicht) que não valoriza os capitais individuais (e muito menos o capital social total), mas que existe por dois motivos básicos: preservar a estrutura de dominação, controle e exploração na sociedade antagônica – cada vez mais complexa sob a forma burguesa – e, contribuir para escoar parte do excedente e gerar empregos em atividades perdulárias. Na junção das duas tendências, encontramos aquela velha trinca de ouros da dominação classista – exército, clero e burocracia – apresentando uma crescente complexidade, oriunda do aprofundamento da manipulação capitalista, em expressões diversificadas, especializadas e localizadas (funcionalismo público, diversas polícias, sistemas religiosos, setor bancário, etc.). Contudo, também encontramos servidores domésticos e comerciários, por exemplo, pois dentro do estrato (Schicht) destes trabalhadores improdutivos (unproductive labourers) também entra aquela distinção entre trabalho (labour) especializado e não especializado. Inclusive nesse sentido, a função dos servidores improdutivos que atuam no planejamento, controle e vigilância dentro da esfera de produção mantém a velha lógica do gerente e do capataz de formações sociais passadas, mas emergindo uma crescente complexidade técnico-industrial em determinadas categorias profissionais, resultando nos licurgos fabris (MARX, 1984, p. 44-45). Deste modo, na divisão manufatureira, intensifica despoticamente dentro da produção aquela divisão característica da sociedade de classes que Marx relata: quando surge a separação entre trabalho manual (manual labour) e trabalho intelectual (intellectual labour) “até se oporem como inimigos” (ibidem, 105) ou, como também é traduzido, “se separam até formar um antagonismo hostil” (zum feindlichen Gegensatz). Ademais, Lessa (2011, p. 148- 149, nota 82) informa que na primeira edição inglesa do Livro I d’O capital, revisada por Engels, temos a expressão deadly foes (inimigos mortais). Sobre os white-collar labourers (“trabalhadores de colarinho branco”, expressão surgida no século XX) que realizam a atividade de controle dentro da produção capitalista comparada a uma hierarquia militar, Marx menciona que a eles são transferidos um conjunto de funções de trabalho intelectual (intellectual labour) que, em certas condições específicas (como um empreendimento nascente, pequeno, por exemplo) é realizado pelo capitalista, porque

ele transfere agora a função de supervisão direta e contínua do trabalhador individual ou de grupos de trabalhadores a uma espécie particular de trabalhadores assalariados (ein besondre Sorte von Lohnarbaitern) (MARX, 1983, p. 264; apud LESSA, 2011, p. 158).

Em seguida, Marx cita algumas funções dos licurgos fabris:

Do mesmo modo que um exército precisa de oficiais superiores militares, uma massa de trabalhadores, que cooperam sob o comando do mesmo capital, necessita de oficiais superiores industriais (dirigentes, managers) e suboficiais (capatazes, foremen, overlookers, contre-maîtres) que durante o processo de trabalho comandam em nome do capital. O trabalho da superintendência se cristaliza em sua função exclusiva (MARX, 1983, p. 264).

Mas há também, na sociedade burguesa, uma fração de servidores produtivos. E Marx (1984, p. 105-106) escolhe o professor de escola privada como “um exemplo fora da produção material” de trabalho produtivo (productive labour). Do ponto de vista do empresário, do capital individual (Einzelkapital), tanto faz se ele se está colhendo o seu lucro de uma fábrica de armas, de uma fábrica de salsichas ou de uma “fábrica de ensinar”. Porém, do ponto de vista da totalidade, da sociedade ou do capital social total (gesellschaftliche Gesamtkapital) é radicalmente diferente o lucro surgido na esfera de produção para o lucro que é extraído na esfera de circulação. Essa mais-valia apropriada pelo dono da escola ao explorar o serviço do professor não representa nenhum novo quantum de valor, afinal este servidor não produz uma “coisa” (Ding) em que se cristaliza o dispêndio excedente de energia humana como “acréscimo de novo valor ao objeto de trabalho” (MARX, 1983, 164), mas apenas converteu um determinado valor, já existente como dinheiro que estava nos bolsos dos pais dos alunos, em capital para o capitalista dono da escola. Como Lessa (2011, p. 168) costuma dizer, do ponto de vista da totalidade social, “é uma autêntica troca de soma de zero”. Em última instância, portanto, assim como outras camadas, este trabalhador produtivo (productive labourer) também vive da riqueza gerada pelos operários.

Diante deste fato, resta comentar, ainda que também brevemente, sobre a relação entre essas duas classes trabalhadoras (labouring classes) assalariadas e exploradas: classe operária e classe servidora. Em primeiro lugar, fazendo jus a complexidade dialética, trata-se de uma relação ambivalente: identidade da identidade e da não identidade. Segundo ponto, a diversidade funcional dos assalariados de serviços é tão grande que a sua relação com o operariado também se apresenta em formas e intensidades variadas. Nessa classe de serviços há camadas precarizadas (muitas pessoas recebendo um salário mínimo ou menos), outras especializadas (muitas vezes com cursos universitários: a Universidade Burguesa tem como uma das metas formar servidores qualificados e, quiçá, “empreendedores”) e até alguns milionários. Vejamos um caso de servidores realizando exploração direta sobre operários para ilustrar essa contradição através de uma situação extrema. Quando fala do salário por peça, Marx descreve um caso destes:

Como qualidade e intensidade do trabalho são controladas aqui pela própria forma de salário [o salário por peça], esta torna grande parte da supervisão do trabalho supérflua. Ela constitui, por isso, a base tanto do moderno trabalho domiciliar anteriormente descrito como de um sistema hierarquicamente organizado de exploração e opressão. Este último possui duas formas fundamentais. O salário por peça facilita, por um lado, a interposição de parasitas entre o capitalista e o trabalhador assalariado, o subarrendamento do trabalho (subletting of labour). O ganho de intermediários decorre exclusivamente da diferença entre o preço do trabalho que o capitalista paga e a parte desse preço que eles realmente deixam chegar ao trabalhador. Esse sistema chama-se na Inglaterra caracteristicamente de sweating-system (sistema de suador). Por outro lado, o salário por peça permite ao capitalista concluir com o trabalhador principalmente – na manufatura com o chefe do grupo, nas minas com o quebrador de carvão etc., na fábrica com o operador de máquina propriamente dito – um contrato de tanto por peça, a um preço pelo qual o próprio trabalhador principal se encarrega da contratação e pagamento de seus trabalhadores auxiliares. A exploração dos trabalhadores pelo capital se realiza aqui mediada pela exploração do trabalhador pelo trabalhador (MARX, 1984, p. 141).

Ao falar de um tipo de “exploração do trabalhador pelo trabalhador”, Marx pode parecer para alguns um sujeito confuso, ambíguo, em determinadas categorias – uma conclusão, por exemplo, que o português (protomarxista) João Bernardo chegou[4] –, porém, isso só ocorre quando se perde o chão dos fundamentos da teoria, as distinções ontológicas e a complexidade das relações sociais que se sobrepõem em níveis de interação – ou seja, o caminho expositivo almejado aqui para se chegar ao tema, propriamente dito, das classes sociais na sociedade burguesa. Sem contar os casos de um mesmo indivíduo pertencendo a duas classes distintas em lugares e ocupações diferentes, falando de um mesmo ambiente, uma exploração de worker por worker (tal como caracterizamos work aqui) é algo antinômico. Mas, neste caso, se pensarmos em exploração de labourer por labourer é perfeitamente possível e coerente. Além disso, quando se busca uma consistente fundamentação ontológica da apreensão teórica evita também fazer as dissoluções das atividades. Vejamos este exemplo acima de Marx: o fato de algum destes atravessadores e chefes citados também ser um operário, isto é, realizar a atividade fundante (work), junto com os comandados, não muda o fato. Isso porque, ao ocupar duas funções sociais na mesma unidade produtiva, há uma relação de exploração entre ele e seu patrão e outra relação de exploração entre ele e seus “colaboradores”. Contradições qualitativamente distintas. Como foi dito anteriormente, Lukács, na análise dos estranhamentos (Entfremdungen), observa como estas alienações (Entäusserungen) têm uma base no complexo econômico, porém se esparramam pela sociabilidade de maneira diversificada e com (relativa) autonomia. Por isso, ele cita aquele exemplo literário de E agora, Zé Ninguém?[5] (LUKÁCS, 2013, p. 633), de dois militantes combativos (combatem estranhamentos mais gerais, estrutural-econômicos), mas, dentro de casa, são opressores da esposa/mãe e filha/irmã (eles são os protagonistas causadores deste estranhamento em particular). Mutatis mutandis, a relação econômica da classe assalariada de serviços é também assim (vítima-algoz e algoz-vítima), levando em conta as particularidades de cada caso na modesta diversidade de apropriação (Aneignung) dentro da classe operária e na gigantesca diversidade de apropriação dentro da classe servidora:

Os assalariados não proletários[6] possuem, portanto, identidades e contradições tanto com a burguesia como com o proletariado. Tais identidades e contradições dos setores assalariados não proletários decorrem da sua inserção na estrutura produtiva. Sua função social, de um modo geral, é auxiliar na reprodução das relações sociais burguesas e, neste preciso sentido, tais setores atuam predominantemente como força auxiliar na reprodução do capital. Contudo, a ampliação das relações capitalistas a todos os poros da sociedade faz com que, de forma crescente, as profissões ditas liberais sejam convertidas em fonte de lucro – sejam incorporadas à valorização do capital, transformando advogados, médicos etc. em trabalhadores assalariados. Esta tendência marcante do desenvolvimento capitalista contemporâneo faz com que aumentem as contradições reais, materiais, destes profissionais para com a burguesia. Contradições estas qualitativamente distintas das do proletariado, mas nem por isso pouco importantes para com o processo histórico (LESSA, 2011, p. 180-181).

Como a heterogeneidade e a funcionalidade servidora desta classe impede que ela se unifique em interesses unívocos em um bloco político próprio e coeso, nos momentos em que há acirramento do antagonismo entre burguesia e operariado em determinada conjuntura (ou se quiser, em termos ideológicos, o confronto agudo entre perspectiva burguesa de manutenção da ordem e perspectiva socialista de superação da ordem), as circunstâncias tendem a dividir, de maneira mais nítida e intensa, o apoio político de setores dessa classe para os dois polos classistas fundamentais. Fenômeno semelhante ocorre com as outras classes de transição. Na Revolução Russa, por exemplo, apesar de não ser a classe protagonista das demandas principais que fundamentaram a insurreição socialista em 1917 (após a Revolução de Fevereiro), o campesinato (esmagadora maioria da população russa), ao empunhar a bandeira da “Terra”, teve um papel decisivo como colaborador na particularidade daquele processo revolucionário[7].

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Notas:
[0] Versão levemente modificada (apenas em determinados termos) da dissertação de mestrado: AYRES, P. Classes fundamentais e classes de transição: Lukács e os fundamentos histórico-ontológicos das classes sociais. CCH-DFL/PGF, Universidade Estadual de Maringá (UEM). Maringá, pp. 148-155, 2018.
[1] A constante classificação que usa os termos ingleses work  e labour, referindo-se, respectivamente, à atividade fundante e ao trabalho abstrato, é uma proposta analítica apresentada na dissertação para melhor visualizar como o termo polissêmico “trabalho” possui diferentes significados, inclusive na tradição marxista.
[2] O termo original utilizado na dissertação é “serviçariado” e, inclusive, nomeia esse tópico na referida obra  (“Sobre o serviçariado”), porém, atualmente, o termo “servidorismo” nos parece com mais potencial de absorção para nomear essa classe social.
[3] Para uma crítica das interpretações sociológicas da burocracia, cf. Botelho (2008).
[4] Cf. Lessa (2011, p. 192-195).
[5] Kleiner Mann, was nun? (Alemanha, 1932), romance de Hans Fallada.
[6] Lessa usa o termo “proletariado” no sentido estrito de “operariado”. Todavia, também é possível encontrar, na tradição marxista, o uso do termo em dois níveis mais abrangentes: como sinônimo de “trabalhadores produtivos” e, mais amplo ainda, como sinônimo de “trabalhadores assalariados” (ou seja, englobando as duas classes assalariadas).
[7] Em sentido oposto, o campesinato (isto é, a sua fração predominante) se movimentou de maneira reacionária no Império napoleônico. O jovem Lukács (1974, p. 75) comenta que nestas classes médias o “interesse de classe orienta-se somente em função de sintomas de evolução e não na própria evolução, em função das manifestações parciais da sociedade e não da estrutura de conjunto da sociedade” (grifos do autor). Assim sendo, elas são “conduzidas sob bandeiras ideológicas opostas” dependendo da conjuntura.
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Referências bibliográficas:
LESSA, S. Trabalho e proletariado no capitalismo contemporâneo. 2ª ed. São Paulo: Cortez, 2011.
LUKÁCS, G. Para uma ontologia do ser social II. Trad. Nélio Schneider, Ivo Tonet e Ronaldo Vielmi Fortes. São Paulo: Boitempo, 2013.
MACHADO, G. O lugar dos “serviços” em ‘O capital’ de Marx. In: Teoria e Revolução. Set./2017. Disponível em: <https://teoriaerevolucao.pstu.org.br/o-lugar-dos-servicos-em-o-capital-de-marx/>. Acesso em: 23/10/2017.
MARX, K. O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. Trad. Regis Barbosa e Flávio R. Kothe. São Paulo: Nova Cultural, t-1: 1983 e t-2: 1984.
______. Grundrisse: manuscritos econômicos de 1857-1858: esboços da crítica da economia política. Trad. Mario Duayer, Nélio Schneider, Alice Helga Werner e Rudiger Hoffman. São Paulo: Boitempo, 2011b.
VIANA, N. “Os movimentos sociais populares”. In:______. (Org.). Movimentos sociais: questões teóricas e conceituais. Goiânia: Edições Redelp, p. 71-104, 2016.
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domingo, 25 de abril de 2021

Trabalho e sujeito revolucionário no debate contemporâneo

O curso Trabalho e sujeito revolucionário no debate contemporâneo foi disponibilizado por Efrain Macial e Silva, que editou as aulas em nove partes. Aqui estão a Parte 8 e a Parte 9, onde, por fim, emerge a análise das classes sociais no modo de produção capitalista e, junto a isso, a questão do operariado no mundo contemporâneo.

 
 
 

por Sergio Lessa
UFRN/2006
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sexta-feira, 23 de abril de 2021

China: a dualização socialista-capitalista e o momento predominante

 
 
 por Wu Xuangong

O materialismo histórico e a economia política do socialismo com características chinesas

A economia política do socialismo com características chinesas tem como objeto a investigação das relações de produção da etapa primária do socialismo e a pesquisa de suas leis de desenvolvimento. É necessário insistir no materialismo dialético e no materialismo histórico, proceder da prática, corretamente conhecer as características básicas do socialismo com características chinesas, identificando as contradições nas relações de produção, investigando suas causas e as leis de desenvolvimento das relações econômicas e sociais, buscando maneiras de resolver contradições e promover o desenvolvimento econômico.

1. Persistir na linha ideológica de que tudo deve partir da prática

Partir da prática, buscar a realidade nos fatos, testar e desenvolver a verdade a partir da prática, é a linha ideológica do Partido Comunista da China, guiado pelo marxismo. Nosso partido seguiu e implementou esta linha ideológica correta e conquistou grandes vitórias na causa da revolução e da construção. Devemos continuar aderindo a esta linha ideológica, analisando com veracidade as atuais condições sociais, econômicas, políticas e as condições ideológicas de nosso país como base para a formulação de novos planos de desenvolvimento no futuro. Depois de mais de 30 anos de reforma e abertura, as relações econômicas e sociais em nosso país passaram por uma série de mudanças gigantescas. Além do desenvolvimento sustentado e rápido da produtividade social, bem como do rápido crescimento do poder econômico nacional, o mais importante foi a mudança na estrutura social da propriedade dos meios de produção.

O regime de propriedade pública socialista anterior, que abrangia quase toda a sociedade, deu lugar a um regime baseado na coexistência da propriedade pública socialista, da propriedade privada capitalista e propriedade privada individual. Com as gigantescas mudanças na estrutura social da propriedade dos meios de produção, uma série de mudanças ocorreram também nas relações sociais de produção, bem como na política e na ideologia de nosso país. Primeiro, um grande número de empresas privadas capitalistas surgiram fora da economia socialista. Essas empresas implementam um sistema baseado no trabalho assalariado, tendo como meta de produção a busca do lucro máximo, existindo uma relação entre o impulso capitalista e a exploração dos trabalhadores.

Após a implementação do sistema empresarial moderno na economia estatal socialista, suas relações internas também sofreram grandes mudanças. As empresas estatais apresentam algumas diferenças no que diz respeito aos direitos de propriedade, controle e uso dos meios de produção, resultando em que elas também tenham seus respectivos interesses parciais. Como resultado, os direitos de propriedade coletiva surgiram dentro do sistema de propriedade estatal, o que criou um certo grau de desigualdade entre o sujeito e o objeto das empresas estatais. Após as reformas de propriedade acima, todas as empresas, incluindo empresas estatais, tornaram-se entidades independentes de direitos de propriedade, com vários graus de poder econômico e benefícios, e o estado não tem mais o direito de emitir instruções econômicas para elas. A fim de desenvolver a produção e a operação, aumentando os interesses das empresas, elas devem se adaptar às necessidades do mercado, cumprir as regras do mercado e alocar e usar de forma flexível vários recursos.

Nessas condições, a economia de mercado gradualmente substituiu o sistema de economia planificada, tornando-se a forma básica para as pessoas estabelecerem conexões econômicas, bem como o mecanismo decisivo para a alocação de recursos. A produção social da China está se desenvolvendo a uma velocidade muito rápida há muito tempo. A “economia de escassez” transformou-se em uma economia capaz de produzir muitos produtos, fazendo com que em muitos campos aparecessem até mesmo a superprodução de produtos.

Com o rápido desenvolvimento da economia capitalista, cada vez mais magnatas estão acumulando grandes quantidades de riqueza, enquanto a renda dos trabalhadores aumenta lentamente, produzindo uma injusta distribuição injusta e disparidade na propriedade, fazendo assim que o coeficiente Gini na China saltasse para a linha de frente mundial. A burguesia, que havia desaparecido no passado, reapareceu e sua força está se expandindo rapidamente.

Junto com o desenvolvimento da economia privada, tem surgido muitos fenômenos anormais e caóticos no mercado, que anteriormente era relativamente ordenado, justo e honesto. A especulação, fraude e enganação proliferaram, e um grande número de produtos falsos e inferiores, ou até mesmo produtos nocivos e tóxicos, surgiram em vários campos; enormes quantias de dinheiro especulativo atingiram vários mercados, manipulando os preços dos produtos de necessidades diárias, perturbando a ordem normal do mercado, saqueando as massas. Com a expansão da economia privada e sua ânsia por grandes lucros, o desperdício, o abuso e a pilhagem de recursos naturais estão por toda parte, destruindo gravemente a ecologia, poluindo o meio ambiente, causando uma desgraça natural que será difícil de ser resolvida para as próximas gerações, comprometendo seriamente vida e saúde das pessoas. Sob a influência do aumento do poder do capital, um grande número de novos tiranos locais, que corrompem funcionários e oprimem o povo, emergiu dentro do Partido Comunista e do governo, cujo objetivo é servir ao povo, danificando seriamente a imagem do partido e do governo, danificando as boas relações herdadas há muito tempo entre o partido e o governo, pondo assim em perigo a nossa base política e a estabilidade social. Com o desenvolvimento da economia capitalista e a introdução do pensamento ocidental, a ideologia social na China torna-se cada vez mais complexa, os princípios revolucionários tornaram-se cada vez mais frouxos.

A crença no socialismo enfraqueceu gradualmente, de modo que o marxismo foi marginalizado; a ênfase no interesse próprio, bem como a busca pelos interesses materiais tornou-se uma tendência. A prostituição e o tráfico de drogas, extintos por muitos anos, ressurgiram; roubos, assassinatos , sabotagem, estupro e outros casos aumentam rapidamente. As mudanças acima são notáveis e possuem um impacto de longo alcance. Reconhecer com honestidade e compreender plenamente essas mudanças é o ponto de partida para aderir à linha ideológica do Partido, reconhecendo com clareza o caminho de desenvolvimento futuro, formulando políticas de reforma e desenvolvimento corretas e fazendo avançar a causa do socialismo com características chinesas.

2. Compreender corretamente as características do socialismo com características chinesas

O Secretário-Geral Xi Jinping destacou: “Compreender com precisão as novas mudanças e as novas características de nosso país em diferentes estágios de desenvolvimento, fazendo com que o mundo subjetivo atenda melhor à realidade objetiva e decidir a política de trabalho de acordo com a situação atual. Este é método de trabalho que devemos ter em mente.” (Discurso de Xi Jinping no 11º Estudo Coletivo do Birô Político do 18 º Comitê Central do Partido Comunista da china)

A construção da economia política do socialismo com características chinesas também deve manter este método em mente, apreendendo com precisão as características do socialismo com características chinesas. Centenas de artigos apresentam diferentes opiniões sobre quais são as características básicas do socialismo com características chinesas. Eles falam sobre alguns aspectos e características do socialismo na China, mas não exploram sua base de produção, não conseguiram ver as conexões internas e as leis de desenvolvimento das relações sociais e econômicas de nosso país, portanto, não são capazes de compreender as características gerais do socialismo com características chinesas.

O Secretário-Geral Xi Jinping destacou: “O socialismo com características chinesas é único em sua trajetória, teórico e sistema.” “O caminho do socialismo com características chinesas é a via para alcançá-lo. A estrutura teórica do socialismo com características chinesas é um guia para a ação. O sistema do socialismo com características chinesas é a sua garantia fundamental; os três são unificados na grande prática do socialismo com características chinesas. Esta é a característica mais distintiva do socialismo com características chinesas.” (Discurso de Xi Jinping no 1º Estudo Coletivo do Birô Político do 18º Comitê Central do Partido Comunista da China)

Estas palavras apresentam uma ideologia norteadora clara para que possamos compreender as características do socialismo da China como um todo. Caminho, estrutura teórica e sistema estão interconectados e sua base reside na propriedade dos meios de produção. Portanto, a partir da análise das características do atual sistema de propriedade dos meios de produção em nosso país, podemos compreender as características básicas do socialismo com características chinesas a partir de um nível básico.

A reforma e abertura rompeu a anterior estrutura social quase única de propriedade dos meios de produção, formando gradualmente um sistema econômico básico que toma a propriedade pública como corpo principal e múltiplas formas de propriedade se desenvolvem conjuntamente. Neste tipo de estrutura social de propriedade dos meios de produção, as formas principais são a propriedade pública socialista e propriedade privada capitalista dos meios de produção. A coexistência desses dois tipos de propriedade dos meios de produção, fundamentalmente diferentes em sua natureza social, resulta na dualização da estrutura social de propriedade dos meios de produção, causando grandes mudanças nas relações sociais, econômicas e políticas: primeiro, as antigas relações socialistas de produção dominantes foram transformadas em relações socialistas e capitalistas de produção; de acordo com isso, a burguesia, uma vez eliminada, cresce novamente, e mantém uma força econômica poderosa que é muitas vezes maior do que antes das “três grandes transformações”. Segundo, a antiga situação onde as leis econômicas socialistas dominam globalmente os movimentos sociais e econômicos já não existe; com o surgimento e o desenvolvimento das relações de produção capitalistas, surgem também as leis econômicas capitalistas, de modo que se papel torna-se cada vez mais forte, não só dominando atividades econômicas capitalistas, mas também interferindo efetivamente no papel das leis econômicas socialistas. Terceiro, ocorreram grandes mudanças no âmbito das contradições principais. Além da contradição principal da sociedade socialista, há também a contradição principal do capitalismo.

Este é um simples resumo do estágio atual da dualização da propriedade dos meios de produção, das relações de produção, das leis econômicas e das contradições sociais principais. Elas são óbvias e cada vez mais proeminentes, amplas e afetam e restringem diversos aspectos da economia e da política, além de terem uma influência significativa em outros aspectos. Portanto, devemos considerá-la como a característica básica da etapa primária do socialismo na China. Atualmente, existem na China um grande número de fenômenos e problemas econômicos que não existiam no passado e são contrários à natureza e princípios do socialismo. A partir da dualização podemos encontrar a origem e obtermos explicações convincentes, assim como encontrar formas para resolver os problemas.

A economia política chinesa usa a teoria básica e o método do marxismo para analisar as relações sociais de produção, chegando a conclusões corretas. Porém, até hoje a aplicação da teoria básica e do método do marxismo tem sido unilateral, ficando para trás em relação ao desenvolvimento da realidade. Muitas pessoas ignoram ou não ousam encarar diretamente as grandes mudanças econômicas e sociais causadas pela dualização da propriedade, usando teorias formadas no período onde prevalecia um único tipo de propriedade socialista para explicar as atuais e complexas relações sociais de produção; elas não ousam comentar sobres relações capitalistas de produção e os fenômenos sociais que sugiram em grande número. Eles até mesmo negam a comentar a existência das relações econômicas capitalistas. Não pesquisam ou discutem sobre a diferença básica entre as duas relações de produção fundamentalmente distintas, as relações mútuas e contradições entre as duas. Dessa maneira as massas populares não podem entender corretamente as raízes dos numerosos problemas e contradições que estão surgindo atualmente, sendo fácil atribuir erroneamente ao socialismo alguns fenômenos negativos gerados pela economia privada capitalista, fazendo com que elas percam a confiança no sistema socialista, obscurecendo o caminho de desenvolvimento do socialismo e diluindo a convicção na teoria marxista. Portanto, para estudarmos as relações de produção na etapa primária do socialismo e inovarmos o sistema da economia política, nós devemos partir da prática da dualização do regime de propriedade em nosso país.

3. Encarar as contradições, investigar e compreender as leis econômicas objetivas

O Presidente Mao Zedong apontou: “A lei da contradição nas coisas, a lei da unidade dos contrários, é a lei mais básica da dialética materialista.” (Obras escolhidas de Mao Zedong, Vol.1, Editorial do Povo, 1962, pg. 274) “A lei da unidade dos contrários é a lei fundamental do universo. Tal lei, não apenas no mundo natura, mas também na sociedade e no pensamento humano, é universal.” (Obras escolhidas de Mao Zedong, Vol.5, Editorial do Povo, 1977, pg.372) O Secretário-Geral Xi Jinping destacou: “A habilidade de pensar dialeticamente é precisamente reconhecer, investigar e resolver as contradições, ser bom em compreender e localizar o fundamental, e ter habilidade em ver com clareza o desenvolvimento das coisas.” (Discurso de Xi Jinping na Cerimônia de Abertura do Semestre da Primavera na Escola do Comitê Central do Partido Comunista da China, 1 de março de 2010) Persistir no método de investigar as contradições, conhecer corretamente as relações sociais de produção em nosso país, é de fundamental importância para estabelecer e criar a economia política moderna da China. Pelo fato de passar pelo processo de reforma e abertura, em nosso país formou-se uma estrutura social onde as relações de produção socialistas e capitalistas existem ao mesmo tempo. Esses dois tipos de relações de produção são essencialmente distintas, por isso possuem objetivos sociais de produção completamente diferentes, leis de desenvolvimento diferente, bem como também é diferente as contradições sociais e os seus impactos. Em comparação com a fase anterior, onde existia apenas um tipo de propriedade, as contradições atuais são muito mais complexas, sendo necessário que realizemos uma analise profunda das mesmas.

O objetivo da produção social no socialismo é o de atender as crescentes necessidades materiais e culturais dos trabalhadores, sua contradição principal é que o desenvolvimento da produção não pode satisfazer às crescentes necessidades dos trabalhadores; no capitalismo o objetivo da produção social é buscar o máximo de mais-valia; sua contradição principal se manifesta como uma contradição entre os capitalistas e os trabalhadores assalariados, a contradição entre a produção organizada no interior da empresa e a situação onde a produção social é cega, a contradição que a demanda pela habilidade para pagar o desenvolvimento da produção é relativamente insuficiente. A contradição entre socialismo e capitalismo não só desempenha um papel importante em suas próprias relações de produção, mas pelo fato de coexistirem na mesma sociedade, influenciam-se mutuamente. Os dois tipos de contradições se entrelaçam interna e externamente, formando uma rede cada vez mais complexa e grande de contradições. Junto com a contradição entre a base econômica e a superestrutura, inúmeras contradições sociais são geradas na sociedade, e surgem uma série de erros que são incompatíveis com a essência do socialismo. A economia política deve ter a coragem de expor e encarar tais contradições, analisando-as e, ao mesmo tempo, saber distinguir e tratar as contradições principais, os aspectos principais e não principais das contradições e, em particular, explorar abrangente e sistematicamente as condições objetivas para o surgimento dessas contradições , compreendendo suas conexões inerentes, essenciais e inevitáveis, julgando suas tendências de transformação, descobrindo as formas e métodos corretos para resolvê-los.

Na China socialista, a razão pela qual existem muitas contradições e problemas complicados, é porque com a dualização da propriedade e das relações de produção, além das leis econômicas socialistas, existem também as leis econômicas do capitalismo. Nas relações de produção socialistas, os meios de produção e os produtos do trabalho são apropriados coletivamente pelos trabalhadores. O objetivo da produção social é satisfazer ao máximo as crescentes necessidades materiais e culturais de todas as pessoas, eliminando a relação de exploração e a produção social onde poucas pessoas se apropriam dos frutos do trabalho de outras pessoas, a competição cega e a anarquia. Desempenha um papel principalmente as leis econômicas básicas do socialismo, as leis de cooperação igualitária entre os trabalhadores, as leis de organização planejada da produção social, leis de distribuição de acordo com o trabalho, e assim por diante. Os efeitos positivos dessas leis econômicas têm promovido o desenvolvimento sustentado da economia de nosso país em alta velocidade e relações econômicas harmoniosas e estáveis.

Completamente diferente do socialismo são as relações de produção capitalistas. Nas relações de produção capitalistas, a burguesia possui e controla todos os fatores de produção, com o objetivo de maximizar o seu lucro, tentando fortalecer a exploração dos trabalhadores nas empresas, em sua luta mútua por apoderar-se do mercado, estando suas atividades dominadas pela lei da mais valia, a lei do acúmulo de capital, a lei da competição cega de mercado, e a lei da distribuição que aumenta a disparidade entre ricos e pobres.

Com o crescimento do poder econômico capitalista, essas leis passaram a desempenhar um papel cada vez mais significativo e potencializado, gerando uma produção social cega e desordenada, resultando em uma série de problemas de desequilíbrio produtivo, danos ecológicos e danos aos interesses do povo, tendo um efeito negativo para a estrutura industrial do país. A otimização e modernização da economia nacional não conduzem à coordenação geral e ao desenvolvimento sustentável da economia nacional e, em última análise, não conduzem ao progresso social e à melhoria da vida das pessoas.

Além disso, as duas relações de produção e as leis econômicas coexistem em nossa sociedade e inevitavelmente influenciam-se. A economia pública socialista, especialmente a economia estatal, tem um certo efeito externo positivo sobre a economia privada. Por exemplo, na economia estatal, os trabalhadores têm uma relação de igualdade e cooperação, e a implementação da distribuição de acordo com o trabalho ajuda a limitar o grau de exploração pelas empresas privadas; desempenha um papel importante nos objetivos de regulação e controle, o que ajuda na redução aos danos ao desenvolvimento coordenado da produção social pelo impulso privado que visa o lucro; desempenha um papel de liderança na inovação tecnológica, no ajuste estrutural social e econômico e na proteção ecológica e ambiental. Da mesma forma, as leis do capitalismo têm um enorme impacto sobre o economia pública socialista, principalmente interferindo no funcionamento normal das leis econômicas socialistas. Devido a pressão competitiva da economia capitalista, as empresas estatais também devem lutar por mais acumulação, por isso não podem aumentar os salários e os benefícios, não podem assumir mais responsabilidades sociais e realizar os objetivos de produção socialista; sob a influência dos maus comportamentos da burguesia, nestas circunstâncias, algumas empresas estatais também podem realizar algumas atividades irregulares, o que não conduz à utilização eficaz dos recursos sociais e à coordenação das relações de cooperação entre as empresas estatais.

Os baixos salários e o baixo poder de compra dos trabalhadores na economia privada irão, inevitavelmente, arrastar para baixo a economia estatal, que compartilha o mesmo mercado com ela, dificultando a venda dos produtos de algumas empresas estatais devido à demanda interna insuficiente, formando um excedente relativo de produção, que é originalmente algo característico da produção capitalista; alguns gestores de empresas estatais se corromperam, resultando em uma grande perda de ativos estatais, e até mesmo em sua alienação e transformação qualitativa. Algumas empresas privadas se envolvem em vários tipos de atividades ilegais, que prejudicam seriamente os interesses do povo e interferem nas leis econômicas básicas do socialismo. Devemos estar atentos para o fato de que, ao existirem na sociedade dois tipos de leis econômicas, uma delas deve ser a dominante. Enquanto a economia socialista tiver uma grande força, poderosa o suficiente para dominar toda a sociedade, as leis da economia socialista ainda podem desempenhar um papel de liderança. Por outro lado, na medida que o poder do capitalismo continuar a se expandir, o papel das leis econômicas capitalistas claramente aumentarão dia após dia. Os dados históricos da economia de nosso país comprovam que todas as mazelas sociais, da mais insignificante até a mais proeminente, estão relacionadas com as relações capitalistas de produção, ao fortalecimento e expansão simultânea do papel desempenhado pelas relações de produção capitalista. Uma vez que a economia capitalista seja forte o suficiente para ocupar uma posição superior, a lei econômica do capitalismo irá necessariamente se converter na lei econômica dominante na sociedade.

4. Usar a teoria marxista de propriedade para analisar os variados processos de reprodução

A propriedade dos meios de produção é uma certa forma social das condições de produção e uma condição prévia indispensável para qualquer produção social. Marx e Engels atribuíram grande importância ao papel da propriedade nas relações de produção, sublinhando sempre que a propriedade dos meios de produção é a base das relações de produção, que desempenha um papel decisivo em todos os outros aspectos das relações de produção, e utilizaram a teoria da propriedade para explicar as mudanças nas formações sociais humanas, bem como da essência e leis de desenvolvimento das relações econômicas nas várias áreas de reprodução sob uma formação econômica.

O materialismo histórico enfatiza que as forças produtivas determinam as relações de produção, mas há um processo de mudança quantitativa a qualitativa, bem como um caminho específico para alcançar tal mudança. Isto se reflete no fato de que o desenvolvimento das forças produtivas é gradual, e nem todo avanço leva a uma mudança imediata nas relações de produção; mesmo que haja um grande avanço nas forças produtivas, ele não altera diretamente todas as relações de produção imediatamente. Um grande desenvolvimento na produtividade que contradiz a estrutura anterior dos direitos de propriedade (ou o sistema de direitos de propriedade, ou seja, a forma de propriedade) que o vincula, levará primeiro a alguns ajustes na estrutura dos direitos de propriedade dentro da estrutura do sistema anterior de propriedade, resultando em algumas mudanças na forma de propriedade, e depois, após algumas etapas, a uma mudança na forma básica de propriedade. As mudanças na natureza da propriedade dos meios de produção serão seguidas, mais cedo ou mais tarde, por mudanças em outros aspectos das relações de produção, levando a mudanças no modo de produção como um todo. Esta evolução gradual das relações de produção, determinada pelas forças produtivas, é evidenciada pela sucessão de sociedades primitivas, escravas e feudais e pelas mudanças progressivas na estrutura dos direitos de propriedade dentro do capitalismo. Ela mostra que a propriedade dos meios de produção, embora sendo parte das relações de produção, desempenha um papel prévio, intermediário e decisivo na transmissão da energia das forças produtivas e na mudança das relações de produção na sociedade como um todo.

Portanto, é necessário reconhecer e enfatizar o importante papel da propriedade dos meios de produção nas relações de produção, tomando a análise da propriedade como um método básico e aplicar a teoria da propriedade marxista de forma abrangente para analisar as relações econômicas dos vários processos de reprodução. Esta abordagem é ainda mais necessária e aplicável à construção de uma economia política socialista com características chinesas. Somente analisando a relação mais fundamental, ou seja, a propriedade e sua forma de realização, podemos descobrir as causas fundamentais das contradições e problemas complicados, numerosos e interligados, as leis de sua transformação e as maneiras de mitigá-los e resolvê-los. Tomemos como exemplo a questão recentemente debatida sobre a relação entre propriedade pública e economia de mercado. Se analisarmos as mudanças na estrutura dos direitos de propriedade dentro do sistema estatal de propriedade antes e depois da reforma e a abertura de acordo com a teoria marxista da propriedade e dos direitos de propriedade, é fácil chegar a uma explicação razoável. Antes da reforma e da abertura, o sistema de propriedade estatal estava altamente concentrado no Estado, e as tarefas de produção das empresas eram atribuídas pelo Estado em diferentes níveis, e todos os lucros eram pagos ao Estado, enquanto todas as perdas eram subsidiadas pelo Estado. Sob este sistema de direitos de propriedade, as empresas não têm autonomia nem interesses locais, e não são responsáveis por lucros e perdas, portanto, não podem se tornar verdadeiros agentes do mercado.

Alguns estudiosos, simplesmente ao considerar a propriedade como uma relação entre quem possui os meios de produção e tratar a estrutura na qual todos os tipos de direitos de propriedade estão concentrados no Estado como a única forma de propriedade estatal, argumentaram que o sistema estatal é incompatível com a economia de mercado. Após a reforma, a maioria das empresas estatais implementou um sistema de direitos de propriedade que separa propriedade e administração, e algumas também estabeleceram um sistema corporativo que separa os direitos de propriedade dos contribuintes dos direitos de propriedade das pessoas jurídicas. Enquanto o primeiro tipo de empresas não possui os meios de produção no sentido restrito (isto é, o direito de propriedade), elas têm o direito de possuir, usar e dispor dos bens que lhes foram confiados pelo Estado, recebendo uma parte dos benefícios econômicos decorrentes de suas operações; o segundo tipo de empresa tem plena propriedade e pode usufruir de todos os benefícios econômicos. Desta forma, as empresas estatais, que não tinham seus próprios poderes autônomos e interesses parciais, tornaram-se entidades proprietárias com uma parte substancial (ou a totalidade) dos direitos de propriedade. Sob este novo sistema de direitos de propriedade, se há ou não uma troca de equivalentes entre as empresas estatais é uma questão de se os custos de mão-de-obra da empresa podem ou não ser realizados, e torna-se uma questão de estreita preocupação com os interesses da empresa e de seus funcionários.

Quando o Estado e uma empresa estatal precisam dos produtos uns dos outros, eles não adotam os mesmos métodos de alocação como no passado, mas realizam a troca através do mercado a preços iguais, de modo que não infringem os interesses econômicos de ambos. Este é um requisito inerente para o reconhecimento e manutenção dos direitos de propriedade coletiva das empresas. Como resultado, deve ocorrer uma verdadeira relação de mercantil entre o Estado e a empresa estatal. Quando as empresas estatais gozam de poder e interesses independentes e se tornam produtores e operadores mercantis verdadeiramente independentes, elas só podem organizar suas atividades econômicas de acordo com as condições de mercado e submeter-se à autoridade da lei do valor e do mecanismo de mercado para seus próprios interesses e desenvolvimento. O Estado não pode mais dirigir as atividades das empresas apenas por meios administrativos e de planejamento, como fazia no passado. Como resultado, o mecanismo de mercado tornou-se inevitavelmente o meio e a forma básica de regular a alocação de recursos sociais, e a economia planificada foi gradualmente substituída pela economia de mercado. Portanto, o sistema reformado de propriedade estatal não é mais compatível com a economia de mercadorias e a economia de mercado, mas está agora em uma relação inerentemente unificada com suas próprias exigências.

Quando o Estado, uma empresa (privada) e uma empresa estatal precisam dos produtos uns dos outros, eles não podem adotar as mesmas formas de alocação do passado. Em vez disso, eles devem realizar uma troca igual através do mercado, de forma que eles não ocupem ou infrinjam os interesses econômicos uns dos outros. Este é um requerimento inerente da confirmação e proteção dos interesses de propriedade coletivos das empresas. Como resultado, deve haver uma real relação mercantil entre o Estado, as empresas privadas e estatais. Quando as empresas desfrutam direitos independentes, interesses e convertem-se em produtores e administradores independentes de mercadorias, eles apenas podem organizar suas atividades econômica de acordo com as condições do mercado, obedecendo a autoridade da lei do valor e dos mecanismos de mercado, para os seus próprios interesses e desenvolvimento. O Estado não pode dirigir as atividades das empresas através da planificação e métodos administrativos como costumava fazer. Portanto, os mecanismos de mercado necessariamente convertem-se no meio e a forma básica para ajustar a alocação dos recursos sociais, sendo a economia planificada gradualmente substituída pela economia de mercado. Portanto, não é uma questão de se o sistema de propriedade estatal reformado é compatível ou não com a economia de mercado, mas que agora ele se encontra em uma relação unificada com suas próprias exigências.

Além disso, um grande número de questões teóricas, tais como as da governança interna das empresas, as relações entre as empresas e as partes interessadas, o comportamento, o papel e a inter-relação dos agentes econômicos de natureza diferente no mercado, a ordem de mercado e as perspectivas de desenvolvimento do mercado, a relação entre as empresas e o estado, a implementação do planejamento econômico nacional, as relações de distribuição de natureza diferente da economia, etc., também devem ser analisadas de acordo com a base de propriedade na qual elas surgem, para assim chegarmos a conclusões que estejam de acordo com as leis objetivas.

5. Reconstruir o sistema da economia política tendo como base as características da dualização

Um sistema científico e intimamente relacionado natureza e as características do seu objeto de pesquisa. Portanto, de acordo com as características do socialismo com características chinesas, a dualidade de propriedade e das relações de produção, a parte principal da economia política deve ser alterada para completamente separar as relações de produção capitalistas e as relações de produção socialistas. Deve prestar atenção a relação entre dois tipos diferentes de relações de produção que se desenvolvem conjuntamente, mas que também competem mutuamente e possuem contradição. Considerando preliminarmente, a estrutura do sistema pode ser organizada da seguinte maneira: a primeira parte é introdutória, aplicando os princípios gerais do materialismo histórico e da economia política, aclarando os objetos de pesquisa, as tarefas e os métodos da economia política chinesa, discutindo a produtividade e as relações de produção e a base econômica, a inter-relação com a superestrutura e o desenvolvimento das formas econômicas sociais, analisando os vários processos de reprodução social e suas inter-relações. A segunda parte é a parte principal, que pode ser mais ou menos explicada em oito aspectos: (1) Descrever brevemente o estabelecimento e o desenvolvimento do sistema econômico socialista na China, a reforma e abertura e a formação do sistema socialista com características chinesas; (2) A propriedade dos meios de produção do socialismo com características chinesas, discutindo separadamente as várias formas de propriedade pública socialista, a propriedade privada individual dos trabalhadores e a propriedade privada capitalista, apontando suas características básicas e essência, mostrando seus direitos de propriedade internos e transformações. (3) A partir de vários processos de reprodução social, analisar a performance e a função das leis econômicas do socialismo e as leis econômicas do capitalismo, bem como a influência mútua desses dois tipos de leis econômicas. (4) Analisar o sistema de distribuição da fase primária do socialismo, indicando os problemas que existem no campo da distribuição e os caminhos para resolvê-los. (5) Explicar o que é a economia de mercado na fase primária do socialismo, sua formação, característica, sua formação, comportamento e influência nas diferentes entidades de mercado. (6) Demonstrar o grande significado do conceito de desenvolvimento socialista, destacando a necessidade e urgência da inovação, propondo o estabelecimento de um sistema de inovação organizado e com liderança; discutir a transformação dos métodos de desenvolvimento e a coordenação de diversas estruturas econômicas. (7) Apresentar o estabelecimento da civilização ecológica socialista, revelando as causas dos problema dos danos ecológicos e as formas de governança. (8) Analisar a situação econômica internacional, explicando os problemas e experiência da abertura ao exterior, assinalando o significado e as formas de “ir para fora”, aproveitando os dois mercados e os dois recursos, participando ativamente na governança econômica e mundial, competindo por uma posição de liderança na economia internacional. A última parte é uma breve conclusão, que analisa as tendências de desenvolvimento dos dois tipos de economia e propriedade a partir de um ponto de vista materialista histórico, explorando as condições de suas transformações e as possíveis direções do seu desenvolvimento futuro, propondo formas de manejar corretamente a relação entre os dois tipos de regime de propriedade, proporcionando uma orientação teórica científica para mantermos os ideais do socialismo e do comunismo, promovendo o progresso social, e enriquecendo o caminho, a teoria e a autoconfiança no sistema, com um conteúdo claro e sólido.

= = =
[0] Artigo retirado do livro A teoria da propriedade e a inovação da economia política do socialismo (2017), uma compilação de importantes artigos escritos por Wu Xuangong, professor do Instituto de Pesquisa Econômica da Universidade de Xiamen, que foram publicados em revistas acadêmicas na China. Wu Xuangong é um dos principais economistas marxistas chineses, estudioso dos problemas relacionados a questão da propriedade dos meios de produção e das relações de produção na etapa primária do socialismo. É um firme defensor do marxismo e da sua utilização para a compreensão dos problemas contemporâneos da sociedade chinesa, tendo formulado a teoria da “dualização”, que é apresentada em traços gerais no artigo que compartilhamos a seguir.
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quinta-feira, 22 de abril de 2021

Poemas sobre a classe operária: Exploração, Palavra Maldita


Exploração, palavra maldita
Paulo Ayres

Lemos várias coisas no jornal liberal
Inflação, futebol, congresso e dengue
Sempre alguém reclama de corrupção
E ninguém fala da raiz do perrengue

Todo burguês gosta de jogar conversa fora
Mas experimenta tocar na ferida, faz favor
Se xingado de mil nomes ele não se apavora,
Experimenta chamá-lo de agente explorador

Exploração: seja escrava, servil ou assalariada
Podemos esquecê-la e ficar falando dos efeitos
Porém sempre que nos sufocar essa vida errada,
Pensaremos se é possível viver de outro jeito

Palavrinha ausente na mídia e no senso comum
No fundo, todo mundo sente e percebe o que é
Quando o operário entende o motivo do jejum
Esse termo entra no vocabulário durante o café
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domingo, 2 de junho de 2019

Poemas sobre a classe operária: Hipocrisia Nossa de Cada Dia


Hipocrisia nossa de cada dia
Paulo Ayres

Parece até ironia
falar em direitos humanos
e parasitar a mais-valia.

Parece até ironia
flertar com onze no Zap
e defender a monogamia.

Então me diz, nobre professor com doutorado,
até onde você defende a democracia?
Até onde?

É da porta da fábrica pra rua
é da tua boca pra fora.

Enquanto isso,
todo dia, todo santo dia
mais-valia alguém faz
num mundo em que ninguém vale nada.
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